Orixás3 de maio de 2026 · 6 min de leitura

Iemanjá: A Rainha do Mar — Orixá da Maternidade e dos Oceanos

Iemanjá: A Rainha do Mar — Orixá da Maternidade e dos Oceanos

Odô Iyá! Iemanjá é a Grande Mãe da tradição iorubá — Orixá das águas salgadas, dos oceanos, da maternidade universal e da cura emocional. Em iorubá, seu nome — Yemọja — significa "Mãe cujos filhos são peixes" (yeye = mãe, omo = filhos, eja = peixes). É uma das divindades mais amadas em todo o panteão africano e na diáspora, especialmente no Brasil, onde a sua festa em 2 de fevereiro mobiliza milhões em Salvador e em todas as cidades costeiras.

Quem é Iemanjá

Iemanjá é o útero cósmico de onde todas as águas brotaram. Na cosmologia iorubá, ela é frequentemente descrita como a mãe de muitos Orixás — incluindo Xangô, Ogum, Oxóssi, Oxum em algumas linhagens — e como protetora de todas as crianças, dos pescadores, dos marinheiros e de quem precisa de acolhimento em momentos de tempestade emocional.

A sua presença é sentida em qualquer corpo de água salgada: do oceano calmo de manhã ao mar revolto durante a tempestade. Iemanjá ensina que a profundidade emocional é força, não fraqueza — e que toda dor pode ser atravessada quando temos onde ancorar.

No Candomblé brasileiro é sincretizada com Nossa Senhora dos Navegantes (no Sul) ou com Nossa Senhora da Conceição (no Nordeste), e na Umbanda é conhecida como a "Sereia do Mar" ou "Mãezinha".

Atributos Sagrados

Tudo em Iemanjá fala de azul, prata e profundidade:

  • Cores: azul-claro, branco, prateado, em algumas casas rosa-claro
  • Símbolos: o abebé (leque circular de prata ou metal claro), conchas, estrelas-do-mar, sereia
  • Dia da semana: sábado
  • Comidas votivas: manjar branco, peixes, frutas (especialmente maçã, melancia, uvas brancas), arroz doce
  • Elementos: o mar, a espuma, a maresia, a lua cheia
  • Pedras: quartzo branco, água-marinha, pérolas
  • Saudação: Odô Iyá! (Mãe do Rio) ou Omi Odô! (Águas do Rio)

A imagem clássica de Iemanjá representa-a como uma sereia ou como uma mulher serena vestida de azul e branco, segurando o abebé, com o mar como pano de fundo. Mas é importante saber: na tradição iorubá original, Iemanjá não é a deusa do mar — é a deusa do rio Ogun na Nigéria. A associação com o oceano nasceu na diáspora, quando os africanos escravizados chegaram às Américas e viram no mar o caminho de retorno simbólico à terra-mãe.

A Festa de 2 de fevereiro

A maior festa de Iemanjá no mundo acontece em Salvador, Bahia, todos os 2 de fevereiro, no bairro do Rio Vermelho. Milhares de pescadores, baianas e devotos descem à praia trazendo cestos cheios de oferendas:

  • Flores brancas (rosas, alfazemas, palmas)
  • Espelhos, pentes e perfumes
  • Cartas de pedidos enroladas em fitas
  • Bonecas de porcelana representando a Rainha
  • Sabonetes, escovas, brincos, colares

Os cestos são levados em barcos que partem ao alto-mar, onde são entregues às águas. A festa começa de madrugada e estende-se até à noite, com música, dança, cervejaria, missas católicas, giras de Umbanda e candomblé. É uma das maiores festas religiosas afro-brasileiras — e um dos momentos em que o Brasil mais explicitamente honra suas raízes iorubá.

Em outros estados a tradição também é forte: Rio Grande do Sul celebra Iemanjá no dia 2 de fevereiro com a Festa de Nossa Senhora dos Navegantes; Praia Grande e o litoral paulista também têm celebrações enormes.

Mitologia (Itans)

Os Ese Ifá e os Itans iorubá contam várias histórias sobre Iemanjá. Uma das mais conhecidas:

Iemanjá foi casada com Orunmilá, depois com Ogum, e teve muitos filhos que se tornaram Orixás. Quando seus filhos cresceram e partiram para criar o mundo, ela chorou tanto que suas lágrimas formaram os rios. Quando soube que seus filhos não regressariam, suas lágrimas tornaram-se o oceano — vasto e profundo o suficiente para conter toda a sua saudade.

Esta história ensina sobre luto materno e sobre a forma como o amor de mãe transcende a separação física. Iemanjá é frequentemente invocada por quem perdeu filhos, por quem sofre a saudade de pessoas distantes, e por quem precisa chorar até esvaziar antes de conseguir continuar.

Outro Itan importante conta como Iemanjá ensinou os humanos a usar o abebé — o espelho-leque — para ver reflexões da alma. Quando alguém se contempla no abebé de Iemanjá com sinceridade, ela mostra a verdade que a pessoa estava evitando. É por isso que muitos rituais de cura emocional na tradição usam espelhos.

Iemanjá Através das Culturas: Nigéria, Cuba e Brasil

A energia de Iemanjá foi preservada em três grandes tradições da diáspora iorubá, com nomes e ênfases diferentes.

1. Na Nigéria — Tradição iorubá

Em terra iorubá, Yemọja é a divindade do rio Ogun (não do oceano), na atual região de Abeokuta e Ibadan. Os seus templos são pequenos santuários junto ao rio, onde mulheres deixam oferendas pedindo fertilidade, saúde para os filhos e proteção materna. A festa principal acontece anualmente nas margens do rio.

2. Em Cuba — Santería / Regla de Ocha

Na Santería cubana é conhecida como Yemayá e é uma das Sete Potências Africanas. A sua casa é o oceano, e ela é considerada a mãe de todos os Orichas. Sincretizada com La Virgen de Regla (Nossa Senhora de Regla), padroeira do bairro portuário de Havana. A sua festa em Cuba é 8 de setembro, dia da Natividade de Nossa Senhora: a vigília é na véspera, dia 7, e a procissão sai na manhã seguinte pelas ruas de Regla (Verger, Orixás, pp. 70 e 72).

3. No Brasil — Candomblé e Umbanda

No Candomblé, Iemanjá é a Rainha do Mar, e a sua festa máxima em Salvador no Rio Vermelho mobiliza centenas de milhares de pessoas todos os anos. Na Umbanda, lidera a Linha das Águas Salgadas — uma falange de entidades femininas (Marias, Rainhas, Sereias) que trazem cura emocional, dissolução de mágoas antigas e proteção das crianças. Sincretiza com Nossa Senhora da Conceição ou Nossa Senhora dos Navegantes dependendo da região — e a mesma Nossa Senhora da Conceição, em algumas casas de Umbanda, é associada a Oxalá. A sobreposição não é erro: o sincretismo variou por região e por casa, e mais de um Orixá pode dividir a mesma santa.

Como Honrar Iemanjá

Para quem quer aproximar-se de Iemanjá com respeito, sem necessidade de iniciação formal:

  1. Vá ao mar. Caminhe à beira da água, deixe-se pisar pela espuma. Apenas estar com ela é uma forma de saudação.
  2. Ofereça flores brancas. No oceano, num rio, ou num altar caseiro com uma taça de água salgada e flores brancas.
  3. Use azul e branco às sextas e sábados. É uma forma silenciosa de a honrar no dia-a-dia.
  4. Cuide das águas. Não polua, não jogue lixo no mar — Iemanjá está em cada onda. Cuidar dos oceanos é cuidar dela.
  5. Permita-se chorar. Iemanjá é a Mãe que recebe todas as lágrimas. Em momentos difíceis, deixar a emoção fluir é uma das mais profundas formas de devoção.

"Onde há mar, há colo. Onde há colo, há cura. Onde há cura, há Iemanjá."

Odô Iyá! Que as águas salgadas dissolvam o que precisa partir e tragam de volta o que precisa nascer. Que a Rainha do Mar te receba, te abrace, e te lembre que nenhuma dor é mais funda que o amor que ela tem por você.


O que você leu aqui tem raiz nos 256 Odus de Ifá — o corpus que estudamos verso a verso. Leia-os como contemplação: divinação real pertence à mesa de um babalawo consagrado.

Explorar os Odus de Ifá →

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Fontes consultadas

  • OrixásPierre Fatumbi Verger, pp. 70 e 72
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Quem escreve

  • Pablo de Lima (Awofakan)
  • Thaiana de Lima (Ikofá)

Um casal iniciado em Ifá na linhagem cubana — Regla de Ocha / Ifá.

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