Sincretismo Afro-Brasileiro: Quando os Orixás Viraram Santos

Introdução
Quando os navios negreiros trouxeram milhões de pessoas escravizadas da África Ocidental para o Brasil e para Cuba, trouxeram com elas os Orixás. No Brasil, ao chegar, eram "batizados obrigatoriamente 'para a salvação de sua alma'" e tinham de se curvar às doutrinas religiosas dos seus senhores (Pierre Verger, Os Orixás, p. 8). Foi nesse quadro que os Orixás se aproximaram dos santos da Igreja — o que hoje chamamos de sincretismo religioso, e que não aconteceu do mesmo jeito nos dois lados do Atlântico.
O que é sincretismo religioso
Sincretismo é a fusão de elementos de duas ou mais tradições religiosas distintas dentro de um mesmo sistema de prática. No caso afro-americano, é a correspondência que surgiu, durante a escravidão, entre os Orixás iorubá e os santos católicos: um Orixá "por trás" da imagem de um santo, um culto africano celebrado sob a fachada de uma festa cristã.
Sobrevivência, não conversão
Isto não foi um gesto de fé cristã. Na Bahia do início do século XIX, conta Verger, "a religião católica era ainda a única autorizada"; os cultos aos deuses africanos "eram ignorados e passavam por práticas supersticiosas", tinham caráter clandestino, e quem deles participava era perseguido pelas autoridades (Verger, Os Orixás, p. 15). Sobre o regime legal em Cuba, as fontes de que dispomos não dizem nada, e por isso não o descrevemos aqui. Daí a leitura mais difundida: rezar em público para um santo e, em privado, para o Orixá que a imagem escondia — a mesma festa, a mesma vela, dois destinatários. É uma hipótese debatida, não um fato estabelecido. Pierre Verger observa que, ao que parece, membros do clero católico favoreceram a aproximação entre santos e deuses africanos, e deixa em aberto se isso ajudou a converter os africanos ou se "os encorajou na utilização dos santos para dissimular" as suas crenças — pergunta que Nina Rodrigues já fazia em 1890 (Verger, Os Orixás, p. 13). Nem a data é segura: "É difícil precisar o momento exato em que esse sincretismo se estabeleceu" (Verger, Os Orixás, p. 11).
As correspondências no Brasil
No Candomblé, a tradição consolidou um conjunto de pares que ainda hoje orienta festas e devoção popular:
| Orixá | Santo católico (Brasil) | Lógica da associação |
|---|---|---|
| Oxalá | Jesus Cristo / Senhor do Bonfim | pureza, criação, paz |
| Iemanjá | Nossa Senhora da Conceição | maternidade sagrada, o mar |
| Ogum | São Jorge (Rio de Janeiro) / Santo Antônio (Bahia) | guerreiros armados |
| Xangô | São Jerônimo | força e justiça |
| Oxum | Nossa Senhora das Candeias (Bahia) · Nossa Senhora dos Prazeres | águas doces, maternidade |
| Iansã | Santa Bárbara | raio e tempestade |
| Exu | nenhum santo: Verger registra o sincretismo com o Diabo | encruzilhadas |
| Obaluaiê | São Lázaro · São Roque (Bahia) · São Sebastião (Recife, Rio de Janeiro) | doença e cura |
| Nanã | Sant'Ana | ancianidade, avó |
| Oxóssi | São Jorge (Bahia) · São Sebastião (Rio de Janeiro) | flechas, floresta |
A tabela parte da que o site usa no curso (/learn, módulo 6), conferida aqui com Pierre Verger, Os Orixás. Ele registra Xangô–São Jerônimo (Verger, Os Orixás, p. 11); Obaluaiê–São Lázaro, Iemanjá–Nossa Senhora da Conceição, Nanã–Sant'Ana, Iansã–Santa Bárbara e Oxalá–Senhor do Bonfim (p. 12); Ogum com São Jorge no Rio de Janeiro e com Santo Antônio na Bahia (pp. 12 e 48); Oxóssi com São Jorge na Bahia e com São Sebastião no Rio de Janeiro (p. 51); Oxum com Nossa Senhora das Candeias na Bahia e com Nossa Senhora dos Prazeres (p. 65); Obaluaiê com São Roque na Bahia e com São Sebastião no Recife e no Rio de Janeiro (p. 79). Exu não tem santo: "No Brasil, como em Cuba, Exu foi sincretizado com o Diabo", e por causa desse "suposto sincretismo" poucas pessoas lhe são abertamente consagradas (p. 39). Os santos que às vezes se dão a Exu têm outro dono em Verger: São Bartolomeu é de Oxumaré na Bahia (p. 74), e Santo Antônio, de Ogum (p. 12). Oxum com Nossa Senhora Aparecida não aparece nas fontes de que dispomos, e por isso não está na tabela. A variação, aliás, é a regra: no fim do século XIX, diz Verger, a equivalência entre Orixás e santos "era flutuante e variável de acordo com os terreiros" (p. 13). Páginas de Verger: do PDF que consultamos.
Em Cuba, os mesmos Orixás escolheram outros santos
A Santería cubana (Regla de Ocha) sincretizou de forma igualmente profunda, e as correspondências não coincidem com as do Brasil. Os pares estão em Lydia Cabrera, El Monte, e em Verger: Changó–Santa Bárbara (Verger, Os Orixás, p. 72); Yemayá–Virgen de Regla (Cabrera, El Monte, pp. 34–35; Verger, Os Orixás, p. 72); Babalú Ayé–San Lázaro (Cabrera, El Monte, pp. 34–35 e 74–75); Ochún–Caridad del Cobre, a "Mamá Caché" (Cabrera, El Monte, pp. 52–53; Verger, Os Orixás, pp. 65 e 72); Oyá–"Nuestra Señora de la Candelaria" (Cabrera, El Monte, pp. 50–51; Verger, Os Orixás, p. 61); Orula–San Francisco (Cabrera, El Monte, p. 86). Das datas, têm fonte aqui a da Virgen de Regla, 8 de setembro (Verger, pp. 70 e 72), e a de Nossa Senhora das Candeias — a Candelaria —, 2 de fevereiro (Verger, pp. 70–71); Cabrera, no trecho do livro de que dispomos, não dá datas. As demais não as localizamos em fonte primária disponível. Páginas de Cabrera: numeração impressa (ed. Letras Cubanas, 1993). O resultado é uma segunda tabela:
| Orixá | Santo católico (Cuba) | Festa |
|---|---|---|
| Changó (Xangô) | Santa Bárbara | 4 de dezembro |
| Obaluaiyê (Babalú Ayé) | San Lázaro | 17 de dezembro (El Rincón) |
| Yemayá (Iemanjá) | Virgen de Regla | 8 de setembro |
| Ochún (Oxum) | Virgen de la Caridad del Cobre | 8 de setembro |
| Oyá (Iansã) | Virgen de la Candelaria | 2 de fevereiro |
| Orunmilá/Orula | San Francisco de Asís | 4 de outubro |
A mesma santa pode corresponder a dois Orixás diferentes conforme a tradição: Santa Bárbara é Iansã no Brasil (Verger, p. 12) e Changó em Cuba (p. 72). O 2 de fevereiro mostra outro cruzamento: na Bahia, é o dia de Nossa Senhora das Candeias, ligada a Oxum, e é nessa data que "se organiza um solene presente para Iemanjá", numa festa que leva à praia do Rio Vermelho, em Salvador, "uma multidão imensa" (Verger, pp. 70–71); em Cuba, a Virgen de la Candelaria é Oyá (p. 61). Duas tradições, duas leituras do mesmo calendário católico — nenhuma das duas "errada".
Um debate que continua
Dentro da comunidade afro-religiosa, o sincretismo divide opiniões. Uma posição defende que ele é parte da identidade histórica do Candomblé e da Santería, fruto da inteligência de quem resistiu; outra argumenta que os Orixás não são santos, que a fusão foi imposta pela violência, e que a tradição iorubá não precisa de "tradução" católica para ser legítima. O Ifá Wisdom não escolhe um lado: apresenta o sincretismo como fato histórico, com as duas leituras, e deixa a cada praticante a decisão sobre a própria relação com esse legado.
O que isto ensina
O sincretismo não é apenas uma curiosidade de calendário — é o registro de como duas tradições responderam à mesma violência de formas diferentes, e chegaram a resultados diferentes. Olhar as duas tabelas lado a lado é uma forma de estudar história sem escolher um vencedor.
O que você leu aqui tem raiz nos 256 Odus de Ifá — o corpus que estudamos verso a verso. Leia-os como contemplação: divinação real pertence à mesa de um babalawo consagrado.
Quem escreve
- Pablo de Lima (Awofakan)
- Thaiana de Lima (Ikofá)
Um casal iniciado em Ifá na linhagem cubana — Regla de Ocha / Ifá.
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