Introdução
Iansã, também conhecida como Oyá, é a Orixá dos ventos, das tempestades, das mudanças radicais e das transformações. Ela é a força que varre o velho para fazer espaço para o novo, a tempestade que limpa o céu, o fogo que consome para purificar. Na tradição iorubá, Iansã é reverenciada como uma das Orixás mais poderosas — aquela que até os outros Orixás respeitam e temem.
Como guardiã dos portais entre a vida e a morte, Iansã governa o cemitério e o processo de decomposição que libera a alma. Ela é a última a ser invocada em rituais de proteção, pois seu poder é tão grande que precisa ser chamado com respeito absoluto. Sua presença é sentida nos ventos que precedem grandes mudanças, nas tempestades que renovam a terra.
Iansã também é associada ao mercado, ao comércio, e às mudanças na fortuna. Ela pode levar o que temos em um instante, mas também pode trazer abundância inesperada. Sua natureza é imprevisível como o vento — agora suave, agora destrutivo, sempre transformador.
Características e Elementos
Iansã é associada às cores vermelho-escuro, marrom, e às vezes roxo ou listrado, representando o fogo intenso, a terra, e a transformação. Seu número é nove ou múltiplos de nove, e ela governa os ventos, as tempestades, os cemitérios, os mercados, e todas as mudanças súbitas. Seu dia é quarta-feira, dia de intensidade e poder. Na tradição cubana, sua festa é 2 de fevereiro, sincretizada com a Virgem da Candelária.
Seus elementos incluem o vento, o fogo, o raio, as pedras de raios (fulgurites), o eruexim (espanta-moscas de rabo de cavalo) e os chifres de búfalo, e tudo que representa movimento rápido e mudança. Na natureza, Iansã habita os ciclones, os ventos fortes, as tempestades elétricas, as quedas de raio. Ela está presente em todo vento que muda a direção, em toda transformação súbita.
O símbolo mais importante de Iansã é a espada — representando seu poder de cortar, separar e transformar — junto com o iruke de crina negra com que trabalha para os mortos. Os panos que ela agita em rituais simbolizam os ventos que ela comanda, o movimento que ela incita.
Sabedoria Filosófica
A filosofia de Iansã nos ensina sobre a inevitabilidade e a necessidade da mudança. Na tradição iorubá, a resistência à transformação é vista como a causa principal do sofrimento. Iansã representa a força que quebra essa resistência, que varre o estagnado, que impede que nos acomodemos em padrões mortos. Ela nos ensina que a mudança, mesmo quando dolorosa, é libertação.
O sistema de Ifá frequentemente associa Iansã aos Odu que falam sobre transformação radical, perda, renascimento, e poder feminino. Quando um Babalawo interpreta um Odu onde Iansã aparece, a mensagem geralmente envolve a necessidade de abandonar o velho sem hesitação, de abraçar mudanças radicais, ou de reconhecer que algo está chegando ao fim. Iansã não permite atraso.
A sabedoria de Iansã também nos fala sobre o poder da destruição criativa. Assim como uma tempestade pode destruir mas também limpar o ar e trazer chuva fertilizante, as transformações que Iansã impõe, embora perturbadoras, são sempre em última instância regeneradoras. Ela nos ensina a não temer a perda, pois o espaço vazio é necessário para o novo.
Mitologia e Histórias Sagradas
A fonte conta o contrário do abandono: Oyá foi a única das mulheres de Xangô que o seguiu na fuga para Tapa, ao fim do reinado dele — e quando ele se recolheu sob a terra em Kossô, ela fez o mesmo em Irá. O vento tem outra origem: ela vira vento ao ser impedida pelos pais de sair de casa com as joias. E o fogo, outra ainda: Xangô a mandou buscar a poção dos baribas, e ela, desobedecendo, bebeu-a também. (Verger, Orixás, p. 59; Prandi, "Iansã foge ligeira e transforma-se no vento" e "Oiá usa a poção de Xangô para cuspir fogo".)
O Tratado Enciclopédico guarda a história de como Oyá se tornou dona dos cemitérios (p. 637). Na partilha das terras do mundo, Yemayá recebeu o governo dos mares e Oshún o dos rios — mas Oyá, cativa quando se passou a lista, ficou sem governo. Oshún chorou e suplicou a Olofin, e restava um único lugar sem dono: o cemitério. Para fazer feliz a irmã, Oyá aceitou contente — e até hoje é a ama dos camposantos. As peças de cobre de Oyá, diz a entrada, simbolizam o sacrifício de Oshún.
O nove dela vem de ser mãe nove vezes — Ìyá omo mésàn, donde Iansã — e Verger acrescenta os nove braços do delta do Níger. O culto dos eguns tem sacerdócio próprio, o do ojé; o babalaô é sacerdote de Orunmilá e do oráculo. São ofícios distintos, e o que a tradição dá a Oyá é a autoridade sobre os eguns, não o ofício de invocá-los. (Prandi, "Oiá recebe o nome de Iansã, mãe dos nove filhos", e s.v. Ojé; Verger, Orixás, p. 60.)
Relação com os Devotos
O devoto de Iansã desenvolve uma relação intensa e transformadora. Iansã não permite meias-medidas — ou se entrega totalmente a ela, ou ela passa raspando, destruindo o que estiver no caminho. Ela responde a quem precisa de força para mudanças radicais, quem está passando por transformações profundas, quem precisa abandonar o velho sem olhar para trás.
Os filhos de Iansã geralmente têm personalidades intensas, passionais, imprevisíveis. Eles têm dificuldade com rotinas e estabilidade excessiva, frequentemente atraindo mudanças constantes para suas vidas. São naturalmente protetores, especialmente de mulheres e marginalizados, e têm uma forte conexão com temas de morte e renascimento.
O que cada caso pede pertence à mesa do babalawo — não a um site.
Simbolismo
A espada (ou ferro) é o símbolo mais profundo de Iansã — representando seu poder de cortar laços, separar o que está unido, e defender com ferocidade. O que ela agita é o eruexim, o espanta-moscas de rabo de cavalo com que afasta os eguns para o outro mundo; e sobre o seu pejí ficam os chifres de búfalo, o animal que ela foi antes de ser mulher. (Prandi, s.v. Iruquerê; Verger, Orixás, p. 61.)
As cores vermelho-escuro e marrom representam o fogo que consome, a terra que recebe o que foi consumido, e a transformação que ocorre nesse encontro. O vermelho é a paixão e a destruição; o marrom é a terra e a renovação. Juntas, criam uma paleta de poder intenso e terra fertilizada pelo fogo.
O nove de Iansã tem fonte, e é a mesma história que dá o sete a Ogum: a vara de ferro dividia em sete partes os homens e em nove as mulheres, e na perseguição os dois se tocaram ao mesmo tempo. Sobre o nome, as duas fontes divergem e mostramos as duas: Verger deriva Iansã de Iyámésàn, "a mãe transformada em nove"; Prandi, de Ìyá omo mésàn, "mãe de nove filhos". Verger acrescenta ainda os nove braços do delta do Níger. (Verger, Orixás, pp. 42 e 60; Prandi, "Oiá recebe o nome de Iansã, mãe dos nove filhos".)
Conclusão
Iansã nos ensina que a mudança é a única constante, e que resistir a ela é causar nosso próprio sofrimento. Ela nos lembra que às vezes precisamos ser varridos pelo vento, queimados pelo fogo, para renascer em formas mais autênticas. No sistema de Ifá, Iansã é a força que impede a estagnação, que mantém o fluxo da vida.
Honrar Iansã é abraçar as mudanças com coragem, é saber quando deixar ir, é reconhecer que a destruição pode ser criativa. Os 256 Odu frequentemente nos lembram, através das histórias de Iansã, que o poder feminino é uma força da natureza que não deve ser subestimada.
Que o vento de Iansã leve o que não lhe serve mais, que seu fogo lhe purifique, e que sua força lhe sustente nos momentos de transformação. Que você aprenda a dançar com as mudanças em vez de resistir a elas. Jekua Jey Yansa!
Sabedoria
O vento leva o que já cumpriu o seu tempo.