Ewá, o Orixá do mistério: beleza oculta e passagem

Um dos mitos de Ewá reunidos por Reginaldo Prandi termina dizendo que ninguém conhece a identidade da mulher que vive no cemitério, nem de onde veio, nem por que está ali: tudo o que aconteceu é segredo dela (Prandi, mito "Euá é expulsa de casa e vai viver no cemitério"). Poucos Orixás carregam o mistério de um jeito tão explícito: o próprio mito avisa que não vai contar tudo.
Prandi escreve o nome como Euá; o glossário do livro registra, entre colchetes, a forma iorubá Yèwá. Aqui usamos Ewá, como no Candomblé (você encontrará também Yewá). O glossário a define em poucas palavras: Orixá das fontes e dona dos cemitérios (Prandi, Glossário, verbete "Euá"). Uma água que brota e um território dos mortos. Este texto lê oito mitos do capítulo dela para ver como essas duas coisas se juntam.
Uma advertência sobre quem ela é
Antes dos mitos, uma dificuldade que a própria tradição não resolve. Pierre Verger conta que, na Bahia, se fala em sete Iemanjás, e uma delas é Eua (Yewa): na África, um rio que corre ao lado do Ògùn e que certas lendas misturam com a própria Iemanjá (Verger, Orixás, p. 69). Ou seja: em parte da tradição, Ewá aparece como uma face de Iemanjá; nos mitos de Prandi, ela é uma Orixá com nome, família e destino próprios. Vamos ficar com os mitos e deixar a discussão genealógica aberta.
A genealogia, aliás, muda de mito para mito. Em dois deles Ewá é filha de Nanã (Prandi, mitos "Euá transforma-se na névoa" e "Euá é escondida por seu irmão Oxumarê"), e no primeiro aparece como irmã de Obaluaiyê, Oxumaré e Ossain; em outros dois é filha de Obatalá, que a mantém no palácio (Prandi, mitos "Euá é expulsa de casa e vai viver no cemitério" e "Euá se desilude com Xangô e abandona o mundo dos vivos"). Não vale forçar uma versão única. Cada mito ilumina uma face.
A água que nasce do desespero
O primeiro mito é o mais simples e talvez o mais humano. Euá é uma mulher que vive de vender lenha no mercado, e leva os dois filhos consigo à floresta todos os dias. Um dia se perde. As crianças pedem água, e não há nascente, córrego ou poça por perto. Euá roga aos deuses e a Olodumare, deita-se ao lado das crianças já quase sem vida e ali mesmo vira nascente. A água brota limpa, as crianças bebem e se salvam; a água se acumula numa lagoa, que transborda e dá origem a um rio: o Odô Euá (Prandi, mito "Euá transforma-se numa fonte e sacia a sede dos filhos").
Repare no que o mito diz sobre a transformação: ela vem do cuidado com os filhos e do desespero de quem não tem mais nada a oferecer. Ewá não ganha a água como poder; ela vira a água.
A beleza que se dissolve em névoa
O segundo mito vai no sentido oposto. Nanã quer um bom casamento para Euá e pede a Orunmilá que o consiga. Os pretendentes chegam aos montes e se matam uns aos outros pela mão dela, e Euá não aceita nenhum dos vencedores. O reino de Nanã definha: a terra seca, o sol quase apagado, e a matança sem fim. Euá procura Orunmilá, cumpre o que Ifá manda, e então vem a surpresa: a princesa vai se desfazendo até virar uma névoa espessa e branca, e é nessa névoa da manhã que ela passa a cantar, feliz. O Deus Supremo lhe dá então um encargo: cuidar dos amantes que não conseguem se decidir, acompanhar suas dificuldades e orientar seus laços (Prandi, mito "Euá transforma-se na névoa").
Aqui a beleza deixa de ser uma coisa que se possui. Ewá escapa dos que a querem e, ao escapar, ganha um ofício: cuidar de quem não consegue escolher.
A que se esconde
O terceiro grupo de mitos insiste no mesmo movimento de retirada. Num deles, Euá, filha de Obatalá, é uma jovem bela, inteligente e casta, que nunca tinha se interessado por homem nenhum. Um forasteiro chamado Boromu chega ao reino e ela muda: fica triste, distante. Foge do palácio para ter um filho na mata, é encontrada por Boromu coberta por uma saia bordada de búzios, e o bebê, escondido por ele na floresta, é recolhido por Iemanjá, que o cria e lhe dá o nome de Xangô. Quando Euá volta para pedir perdão, Obatalá, ainda furioso, a põe para fora. Ela esconde o rosto sob a saia de búzios e se muda para o cemitério, afastada dos vivos (Prandi, mito "Euá é expulsa de casa e vai viver no cemitério").
Em outro, ela é o próprio horizonte, o ponto em que o céu encontra a terra e o mar. Calada e sozinha, ela não quer marido: quer cuidar do seu ofício, trazer a noite ao horizonte com a magia da sua cabaça, o adô. Como Nanã insiste no casamento, Euá pede ajuda ao irmão, e Oxumaré, o Arco-Íris, a guarda lá na ponta em que seu corpo em arco acaba, atrás do horizonte, onde Nanã não chega mais (Prandi, mito "Euá é escondida por seu irmão Oxumarê"). No mito da desilusão, ela mesma pede ao pai um lugar onde nenhum homem possa vê-la, e Obatalá lhe dá o reino dos mortos (Prandi, mito "Euá se desilude com Xangô e abandona o mundo dos vivos").
Percebe o desenho? Fonte, névoa, horizonte, cemitério: são lugares de passagem, onde uma coisa deixa de ser o que era. E em todos, Ewá foge de ser apenas vista.
A dona do cemitério
Ser dona do cemitério não faz de Ewá uma figura amena. Em um mito, Xangô dança e toca tambor numa manhã de neblina, sem saber onde está. Uma figura feminina surge na brancura e pergunta por que ele dança ali. Xangô, arrogante como sempre, responde que dança onde bem entende. Ela diz que ali é ela quem governa e desaparece; a névoa se dissipa e ele vê as sepulturas. Xangô, que temia a morte e os eguns, sai correndo. Orunmilá lhe explica que aquela mulher era Euá, a dona do cemitério, e desde então Xangô e seus seguidores não entram num cemitério (Prandi, mito "Euá atemoriza Xangô no cemitério").
Outro mito lhe dá também um lado guerreiro e perigoso. Caçadora de grande beleza, ela cegava com veneno quem ousasse olhá-la. Casada com Omolu, que era ciumento, foi presa por ele num formigueiro; as formigas a picaram quase até a morte e a deixaram deformada, e Omolu a cobriu com palha da costa vermelha, para esconder o estrago e para que todos continuassem lembrando dela como a bela caçadora que tinha sido (Prandi, mito "Euá é presa no formigueiro por Omulu").
O mesmo mundo dos mortos aparece, no mito da desilusão, como um trabalho repartido entre vários Orixás: é Ewá quem passa a Oiá o corpo de quem morre; Obaluaiyê leva esses mortos a Orixá Ocô, que os consome para que voltem à terra de Nanã, a matéria de que foram feitos. E ali, no cemitério, ninguém mexe com ela (Prandi, mito "Euá se desilude com Xangô e abandona o mundo dos vivos").
Quem guarda a passagem também salva
Há um mito que liga Ewá ao tema do nosso Estudo de sexta-feira. Orunmilá, o babalaô, foge da Morte, de Icu, que o persegue por todos os campos. Chega a um rio e vê uma linda mulher lavando roupa: é Euá. Ela o põe debaixo da tábua em que lavava, que era, na verdade, um tabuleiro de Ifá emborcado, e volta a lavar e a cantar como se nada fosse. Quando a Morte chega, esbaforida, Euá diz que ele atravessou o rio há muito tempo e está a mais de quarenta rios de distância. A Morte desiste. O mito termina em festa, com todos cantando que Euá livra da Morte (Prandi, mito "Euá livra Orunmilá da perseguição da Morte").
A mulher que governa o cemitério é a mesma que, numa margem de rio, engana a Morte para salvar quem foge. Quem conhece a passagem conhece também o desvio.
O que estes mitos deixam
Lidos juntos, os mitos formam um argumento: Ewá não é uma beleza para ser possuída nem um mistério para ser resolvido. Ela vira água para salvar os filhos, vira névoa para escapar dos que a disputam, se esconde no horizonte para viver como quer e assume o cemitério como reino. Cada retirada dela vem com um ofício: a fonte sacia, a névoa guia os indecisos, a noite cai do seu adô, os mortos têm quem cuide deles.
O que aprendemos com ela é uma lição de contemplação: nem tudo que é belo precisa ser possuído, e nem tudo que é sagrado precisa ser explicado. Onde o mito diz que aquilo é segredo dela, a resposta honesta de quem estuda é deixar o segredo onde está.
Fonte deste texto: mitos recolhidos por Reginaldo Prandi em Mitologia dos Orixás (Companhia das Letras, 2001), capítulo de Euá, e o registro de Pierre Verger em Orixás (p. 69). Recontamos com palavras nossas; não reproduzimos os textos.
O que você leu aqui tem raiz nos 256 Odus de Ifá — o corpus que estudamos verso a verso. Leia-os como contemplação: divinação real pertence à mesa de um babalawo consagrado.
Fontes consultadas
- Mitologia dos Orixás — Reginaldo Prandi
- Orixás — Pierre Fatumbi Verger, p. 69
Quem escreve
- Pablo de Lima (Awofakan)
- Thaiana de Lima (Ikofá)
Um casal iniciado em Ifá na linhagem cubana — Regla de Ocha / Ifá.
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