Erinlé

Caça, rio e água profunda

Nomes nas tradições

Iorubá (Nigéria)
Erinlè
Lucumí (Cuba)
Inle
Candomblé (Brasil)
Erinlé

Introdução

Erinlé é, no glossário do Prandi, o “orixá da caça, pai do orixá Logum Edé”, e o mesmo que Inlé. O glossário acrescenta que ele está esquecido no Brasil, onde Oxóssi tomou o seu lugar em muitos mitos, e que é raramente cultuado em Cuba (Prandi, Mitologia dos Orixás, glossário, verbete “Erinlé”). Verger o situa na terra iorubá: em Ijexá passa um rio chamado Erinle e existe um deus da caça com o mesmo nome, cujo templo principal fica em Ilobu (Verger, Orixás, p. 52). O mesmo trecho diz que, no Brasil e em Cuba, ele é conhecido como Inlé (Verger, Orixás, p. 52). Bastide, que descreve o Candomblé da Bahia nos anos 1950, põe Inlé entre os quatro Oxóssis e o dá como cada vez mais esquecido, porque já não “baixa” no Brasil (Bastide, O Candomblé da Bahia, p. 204). Esta ficha segue a grafia das fontes, e a contagem decide. Erinlé é a forma da obra brasileira que mais o cita (Prandi: Erinlé 90 ocorrências, Inlé 8); Verger usa as duas, e o título da sua seção é “Inlé (Erinle)” (Orixás, p. 52). Inle domina nas fontes cubanas (Tratado Enciclopédico de Ifá: Inle 842, Erinle 15; Angarica: Inle 60; Cabrera: Inle 18 e Inlé 5), enquanto Mason escreve Erinlè (75 ocorrências). As duas formas são tratadas aqui como o mesmo orixá porque o Prandi e Verger o dizem de modo expresso (Prandi, glossário, verbetes “Erinlé” e “Inlé”; Verger, Orixás, p. 52). Cada frase diz de que tradição fala.

Características e Elementos

Nos mitos reunidos pelo Prandi, Erinlé é caçador e guerreiro (Prandi, mito “Erinlé transforma-se em rio e encontra Oxum”), o grande caçador de elefantes (Prandi, mito “Erinlé é chamado Ibualama”) e o mais belo dos caçadores (Prandi, mito “Erinlé tem a língua cortada por Iemanjá”). Seu domínio é duplo, a mata e a água: no fim de um dos mitos, o caçador entra no rio e passa a ser o rio (Prandi, mito “Erinlé é acusado de roubar cabras e ovelhas”). Para a África, Verger descreve o símbolo de Erinlé: uma peça de ferro forjado com um pássaro fixo sobre uma haste central, cercada por dezesseis outras hastes, cada uma com seu pássaro (Verger, Orixás, p. 52). Mason, falando dos lucumís de Cuba, o descreve como sempre benéfico, força de coesão para todas as casas, e como o orixá original da medicina, que teria cedido esse papel a Osanyin; com Osanyin e Orunmilá, partilharia o uso da haste de ferro com pássaros (Mason, Orin Òrìṣà, p. 88 do PDF). Angarica, também em Cuba, diz que Inle precedeu Ozain nas tarefas de medicina, quando era conhecido como o maior conhecedor das ervas (Angarica, Manual del Oriaté, p. 14), e o chama de espírito do bem, caçador, pescador e médico (Angarica, Manual del Oriaté, p. 26). Quanto a dia e correspondências, a única indicação com página que vimos é a de Cabrera: a sexta-feira é dia em que dominam Inle, Babalú Ayé, Obbamoro e Osain (Cabrera, El Monte, p. 48 do PDF); ela o relaciona também a San Rafael, o médico (Cabrera, El Monte, p. 31 do PDF). Cores e número, nas fontes que consultamos para esta ficha, não aparecem com página, e por isso não entram.

Sabedoria Filosófica

Leitura nossa, a partir de mitos citados: Erinlé é o orixá de quem sai de cena sem perder a identidade. No mito em que não consegue pagar a dívida com Orunmilá, ele deposita suas armas no chão e some terra adentro; sobra a quartinha d’água, que transborda e forma um rio que todos reconhecem como o próprio Erinlé (Prandi, mito “Erinlé transforma-se em rio e encontra Oxum”). O que parecia vergonha e fim vira curso de água que não para. Outro fio é o da injustiça e do silêncio. Acusado de roubar o gado do rei, Erinlé prova sua inocência com a própria caça e, mesmo inocentado, não se conforma e deixa de caçar (Prandi, mito “Erinlé é acusado de roubar cabras e ovelhas”). Em outro mito, depois de ver os mistérios do mar, perde a língua, e passa a falar por intermédio de Iemanjá (Prandi, mito “Erinlé tem a língua cortada por Iemanjá”). Nossa leitura: as histórias dizem menos sobre poder do que sobre o que se guarda em silêncio e o que a água faz com aquilo que lhe é entregue. É leitura nossa, não doutrina das fontes.

Mitologia e Histórias Sagradas

Rio e Oxum. Erinlé, caçador e guerreiro, tornou-se amigo de Orunmilá e tomou dele dinheiro emprestado. Quando Orunmilá teve de voltar a Ifé, Erinlé não podia pagar, e as oferendas indicadas pelo babalaô eram caras demais. Envergonhado, deixou suas armas no lugar onde caçava e desapareceu no solo. Os filhos, orientados por Orunmilá, ofereceram galos; a quartinha transbordou e formou um rio. Em Edê, o rio Erinlé encontra o rio Oxum, e da união nasce Logum Edé; mais tarde, no lugar chamado Ibualama, os devotos instituíram um templo para ele (Prandi, mito “Erinlé transforma-se em rio e encontra Oxum”). Língua cortada. Erinlé era o mais belo dos caçadores. Iemanjá o raptou, levou-o ao fundo do mar e depois o devolveu ao mundo; como ele tinha visto os mistérios do mar, ela cortou sua língua para que não os contasse. Desde então Erinlé fala por intermédio de Iemanjá (Prandi, mito “Erinlé tem a língua cortada por Iemanjá”). Acusação. Em Ijebu, inimigos invejosos roubaram cabras e ovelhas do rei e culparam o caçador. Ele trouxe as peles e as presas dos animais selvagens que caçara, e o rei reconheceu sua inocência. Triste, Erinlé deixou de caçar, entrou num rio e não foi mais visto (Prandi, mito “Erinlé é acusado de roubar cabras e ovelhas”). Água profunda. Uma mulher que passava junto a um rio ouviu de Erinlé a ordem de entrar mais fundo; a voz era a do próprio rio, que reclamava por ela não trazer oferenda alguma. Depois, quando foi cultuado como orixá, seus seguidores o chamaram Ibualama, que o Prandi traduz como “Água Profunda” (Prandi, mito “Erinlé é chamado Ibualama”). Logum Edé. Oxum Ipondá se apaixonou por Erinlé; para seduzi-lo, disfarçou-se de mulher da mata com mel e folhas, mas a água do rio desfez o disfarce e ele a abandonou. Dela nasceu Logum Edé, metade rio, metade mato (Prandi, mito “Logum Edé nasce de Oxum e Erinlé”). Em outro mito, pai e filho caçam juntos sem saber que o são; um feitiço os cega, Logum Edé devolve a visão a Erinlé, e do reencontro com Oxum nasce o rio Inlé (Prandi, mito “Logum Edé devolve a visão a Erinlé”). O Prandi registra assim Erinlé como pai de Logum Edé; no glossário, Oxóssi também aparece como possível pai. Fonte cubana. Mason recolhe uma história atribuída a Àyìde Odúnláàmì: Erinlè tinha uma roça de milho e feijão e vivia nela com os filhos; sem água para beber, anunciou ao filho mais velho que logo veria água e não o veria mais, e pediu que o cultuassem no lugar onde entrasse na terra, perto de Ìlóòbú, com feijão e milho seco (Mason, Orin Òrìṣà, p. 89 do PDF).

Relação com os Devotos

O que as fontes registram sobre o culto depende da tradição. Na África, segundo Verger, o culto de Erinlé se faz às margens de lugares profundos (ibù) do rio; cada um tem um nome, mas é sempre Erinlé quem é adorado. Verger anota oferendas de acarajé, inhame, banana, milho e feijão assado, regadas com azeite de dendê (Verger, Orixás, p. 52). No Brasil, um dos lugares fundos do rio, Ibualama, é objeto de culto principalmente na Bahia, onde, nas danças, traz o arco e flecha de ferro de Oxóssi e uma espécie de chicote, o bilala (Verger, Orixás, p. 53). Em Cuba, Mason diz que Erinlè gosta de peixe sacrificado vivo na água e que é louvado como Baba wa mbe ní ìsàlè-omi (Mason, Orin Òrìṣà, p. 89 do PDF). Angarica afirma que Inle “se hace a través de Yemayá” e que o peixe é seu símbolo (Angarica, Manual del Oriaté, p. 27). Cabrera diz que Inle é um santo casto e exigente com a moral dos filhos e devotos, pouco mencionado porque é temido (Cabrera, El Monte, p. 32 do PDF). Cada uma dessas frases fala de Cuba, e nenhuma fala de “os filhos de Erinlé são assim”: o que está dito vale para a tradição e o informante de cada obra. O que cada caso pede pertence à mesa do babalawo — não a um site.

Simbolismo

Os símbolos que as fontes dão a Erinlé aparecem sempre ligados a um relato. Na África, o pássaro sobre a haste de ferro, cercado por dezesseis hastes (Verger, Orixás, p. 52). Em Cuba, Mason registra a haste com pássaro substituída por um cajado de pastor com duas serpentes d’água entrelaçadas, que representam Àbatà, a esposa (“o estanque”); a ele se atam um anzol, uma flecha de pesca e duas pulseiras de ferro de caçador, e o orixá vive numa vasija com pedras e água de rio (Mason, Orin Òrìṣà, p. 89 do PDF). Angarica fala de um ozún em forma de cajado pequeno de metal, com dezesseis pontas em forma de espinhos, que associa aos dezesseis Oddu do Diloggún, e de um peixe como símbolo (Angarica, Manual del Oriaté, p. 27). Nos mitos do Prandi, os signos são a quartinha d’água e o ofá deixados no chão (Prandi, mito “Erinlé transforma-se em rio e encontra Oxum”), o bilala com que Erinlé fustiga o próprio corpo (Prandi, mito “Erinlé é acusado de roubar cabras e ovelhas”) e os galos soltos vivos, que ninguém ousa matar (Prandi, mito “Erinlé transforma-se em rio e encontra Oxum”). Mason traduz o nome Erinlè como “elefante na terra” e anota pronúncias alternativas (Mason, Orin Òrìṣà, p. 89 do PDF). Cores e número não têm página nas fontes que vimos; a lacuna fica dita.

Conclusão

Erinlé reúne, nas fontes, imagens que não se juntam fácil: o caçador que já não caça, o rio que nasce de uma quartinha, o mais belo dos caçadores sem língua, o pescador e médico das fontes cubanas. As obras divergem sobre quem ele é para cada povo, e sobre quão presente está no culto de hoje; o Prandi e Bastide o dão como esquecido no Brasil, e Cabrera, Angarica e Mason falam de uma presença viva na tradição de Cuba. Essa divergência é parte do que há para estudar. Este texto é um estudo das fontes citadas, não uma consulta. Quem quiser ir além pode ler os mitos do Prandi inteiros e as páginas de Verger, Mason, Angarica e Cabrera indicadas acima.

Sabedoria

Erinlé desaparece e vira rio: o que parecia fim segue correndo (Prandi, mito “Erinlé transforma-se em rio e encontra Oxum”).

Conhece uma variante desta tradição que não está aqui, ou encontrou algo a corrigir? Escreva para nós — lemos tudo.

Perguntas frequentes

Quem é Erinlé?+
Orixá caçador e rio, pai de Logunedé, nas fontes da África, do Brasil e de Cuba.
De que Erinlé é dono?+
Caça, rio e água profunda
Quais são as fontes desta página sobre Erinlé?+
Mitologia dos Orixás, Reginaldo Prandi; Orixás, Pierre Fatumbi Verger, pp. 52–53; Orin Òrìṣà, John Mason, pp. 88–89 (páginas do PDF); Manual del Oriaté, Nicolás Valentín Angarica, pp. 14, 26 e 27; El Monte, Lydia Cabrera, pp. 31, 32 e 48 (páginas do PDF); O Candomblé da Bahia, Roger Bastide, p. 204

Fontes consultadas

  • Mitologia dos Orixás — Reginaldo Prandi
  • Orixás — Pierre Fatumbi Verger, pp. 52–53
  • Orin Òrìṣà — John Mason, pp. 88–89 (páginas do PDF)
  • Manual del Oriaté — Nicolás Valentín Angarica, pp. 14, 26 e 27
  • El Monte — Lydia Cabrera, pp. 31, 32 e 48 (páginas do PDF)
  • O Candomblé da Bahia — Roger Bastide, p. 204
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Quem escreve

  • Pablo de Lima (Awofakan)
  • Thaiana de Lima (Ikofá)

Um casal iniciado em Ifá na linhagem cubana — Regla de Ocha / Ifá.

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