Introdução
Ibeji são os gêmeos sagrados. O glossário de Reginaldo Prandi os define em poucas palavras: orixás gêmeos, protetores das crianças (Prandi, glossário, s.v. Ibejis). O nome muda conforme a tradição de que se fala, e isso faz parte do assunto desta página. Nos estudos iorubás, Ìbejì, a forma que John Mason grafa (Orin Òrìṣà, p. 164 do PDF); em Cuba, Ibeyi, a forma do Tratado Enciclopédico de Ifá, que a escreve 71 vezes (Ibeyi e Ibeyis) e também os chama de jimaguas, a palavra cubana para gêmeos; no Brasil, Ibeji, como em Prandi e em Bastide, e no Recife, Beije (Bastide, O Candomblé da Bahia, p. 259).
Esta ficha é de referência: reúne o que cada fonte diz, com a página, e diz de que tradição fala cada frase. A história dos gêmeos no Brasil, com São Cosme e São Damião e o caruru, está contada com mais vagar no nosso artigo do blog sobre os Ibeji.
Características e Elementos
Mason estuda os Ìbejì numa mesma seção com Òge, Òkè, Kórì e Dàda, todos ligados ao nascimento: crianças que chegam com nomes especiais, que falam das circunstâncias em que nasceram. Ele registra que Dàda e os Ìbejì são da família de Ṣàngó (Orin Òrìṣà, p. 164 do PDF). Os nomes são o primeiro dado. Táíwò, o que provou o mundo, é o gêmeo que nasce primeiro; Kéèhìndé, o último a chegar, é considerado o mais velho; Ìdòwú é a criança que nasce depois dos gêmeos, e Àlàbá, a que vem depois de Ìdòwú (Mason, p. 167 do PDF).
O símbolo material são figuras de madeira. Mason chama de ère ìbejì os bonecos entalhados que lembram gêmeos mortos (p. 166 do PDF). Bastide reproduz um registro baiano segundo o qual os ibeji ficam, no peji de cada filho de santo, num prato duplo ou num vaso duplo, com água e comida (O Candomblé da Bahia, p. 261). Mason também liga os gêmeos a um animal: diz-se que os Ìbejì são filhos do macaco colobo, ẹdun (p. 166 do PDF).
A data da festa muda com a tradição. Em Cuba, Mason registra o 26 de setembro, com oferendas à divindade e festa para as crianças (p. 166 do PDF). No Nordeste do Brasil, Bastide registra a festa das crianças em 27 de setembro, dia de São Cosme e São Damião (pp. 255 e 259). Não achamos nas fontes que usamos explicação para as cores que a devoção atribui aos Ibeji, e preferimos dizer isso a inventar uma.
Sabedoria Filosófica
Leitura nossa, a partir dos mitos: os Ibeji são o número dois levado a sério. No mito da estatueta, quando um dos gêmeos morre afogado, o outro definha de solidão; Orunmilá não traz o morto de volta, mas transforma os dois em imagens de madeira para que fiquem juntos para sempre (Prandi, mito "Os Ibejis são transformados numa estatueta"). No mito do terceiro irmão, o gêmeo que sobrevive desenterra o morto e passa a andar amarrado a ele (Prandi, mito "Os Ibejis brigam por causa do terceiro irmão"). Nos dois, a perda de um não deixa o outro inteiro.
E há a outra face, a da força: são crianças, mas vencem o que os adultos não vencem. Mason registra o dito dos mais velhos de que todos os òrìṣà respeitam e escutam os Ìbejì (Orin Òrìṣà, p. 166 do PDF). A conclusão que tiramos daí é nossa, não da fonte: o que parece pequeno e brincalhão pode ser justamente o que segura o mundo.
Mitologia e Histórias Sagradas
Quem são os pais dos Ibeji depende do mito, e Prandi reúne versões que não combinam entre si. Num, eles nascem de Oiá e Oxóssi e são criados por Oxum, primeira esposa dele, junto com Idoú e Alabá (Prandi, mito "Os Ibejis nascem de Oiá e são criados por Oxum"); noutro, são filhos de Iemanjá ("Os Ibejis são transformados numa estatueta"); noutro ainda, de Oxum e Xangô, criados por Iemanjá ("Os Ibejis enganam a Morte"). Em Cuba, Mason registra uma tradição que dá Odùa como mãe dos gêmeos e Olókun como um dos responsáveis por sua criação (Orin Òrìṣà, p. 166 do PDF). Não forçamos uma versão única.
O mito mais conhecido é o da Morte. Icu armou armadilhas em todos os caminhos e levava as pessoas antes do tempo; sacerdotes, adivinhos e curandeiros não conseguiram detê-la. Os gêmeos se revezam tocando um pequeno tambor — um vai pela trilha, o outro segue escondido no mato — e Icu dança sem perceber a troca, até se render e jurar que retiraria as armadilhas (Prandi, mito "Os Ibejis enganam a Morte").
Noutro mito, os primeiros gêmeos entre os iorubás nascem como abicus, crianças que nascem para morrer e renascer, mandados pelos macacos contra um fazendeiro que os caçava. Só quando ele deixa os macacos comerem em paz os gêmeos sobrevivem, e o adivinho diz que os Ibejis têm grandes poderes para gratificar e punir (Prandi, mito "Os Ibejis nascem como abicus mandados pelos macacos"). Mason chega ao macaco por outro caminho: os Ìbejì seriam filhos de ẹdun, o macaco colobo (p. 166 do PDF).
Há ainda o mito da seca, em que os gêmeos, brincando de cavar no quintal, acham uma fonte subterrânea e matam a sede do povoado (Prandi, mito "Os Ibejis encontram água e salvam a cidade"). E Mason registra, a partir do odù Òkànà Ìròsùn, uma versão cubana: Odùa deu à luz um menino e uma menina, os primeiros Ìbejì, que tinham cauda e falavam a língua dos animais e das aves — e essa habilidade lhes permitiu salvar o Òní e Òrúnmìlà (p. 166 do PDF).
Relação com os Devotos
O que as fontes registram sobre o culto muda de lugar para lugar, e vale dizer onde cada coisa foi vista.
Em Cuba, Angarica dedica aos Bellis, ou Jimaguas, uma seção do seu manual: santos insignificantes para alguns e de grande importância para outros, que representam a infância de todos os que nascem; e registra que os antigos não faziam santo aos jimaguas — isso, segundo ele, veio depois, com os crioulos (Manual del Oriaté, pp. 38 e 45). Cabrera, em El Monte, chama os Ibeyes de mellizos divinos, gulosos como Elegguá, identificados com São Cosme e São Damião e prediletos de Obatalá e de Changó (p. 79).
No Brasil, Bastide descreve, na Bahia e no Recife dos anos 1950, uma festa de crianças no fim de setembro, com peditório e missa (pp. 255–256) e o caruru dos pequenos, servido a pelo menos sete crianças, porque sete é o algarismo dos gêmeos (p. 258). E faz uma ressalva que importa: na Bahia e no Recife os ibeji não "baixam", porque ali não são tratados como verdadeiras divindades e sim como os antepassados míticos dos gêmeos; já em Porto Alegre e no sul ele registra o contrário, ibeji homenageados como Orixá e que podem baixar (pp. 259–260). A ressalva é regional e de época, e não descreve todo o Candomblé de hoje.
O que cada caso pede pertence à mesa do babalawo — não a um site.
Simbolismo
O dois é o símbolo mais evidente, mas as fontes mostram que ele não fica sozinho. Prandi conta os gêmeos ao lado de Idoú, o terceiro irmão, e de Alabá (mitos "Os Ibejis nascem de Oiá e são criados por Oxum" e "Os Ibejis brincam e põem fogo na casa"); Mason dá Ìdòwú e Àlàbá como as crianças que nascem depois dos gêmeos (p. 167 do PDF); Angarica fala de sete Bellis, contando Ideu (pp. 38 e 45); e Bastide registra, no Rio, segundo João do Rio, Doú e Alaba ao lado dos ibeji (p. 260).
As figuras de madeira são o outro símbolo: no mito, Orunmilá transforma os gêmeos em imagens para que não se separem (Prandi, mito "Os Ibejis são transformados numa estatueta"), e Mason chama de ère ìbejì os bonecos que lembram os gêmeos mortos (p. 166 do PDF). Mason registra ainda cantos para os Ìbejì, que falam de dar à luz em dois e de consolar a mãe (pp. 173–174 do PDF); não os transcrevemos.
Conclusão
Os Ibeji mostram, numa ficha só, por que este site põe as tradições lado a lado: Ìbejì nos estudos iorubás, Ibeyi e jimaguas em Cuba, Ibeji, Beije e Cosme e Damião no Brasil — com datas, festas e até status diferentes, de antepassados míticos na Bahia de Bastide a Orixá que baixa no sul. Nenhuma dessas formas anula as outras. O que os mitos repetem, em todas, é que os gêmeos são crianças e são poderosos ao mesmo tempo, e que, separados, não se completam.
Sabedoria
O que nasce em dois não se completa sozinho — leitura nossa do mito em que Orunmilá transforma os gêmeos em imagens de madeira (Prandi).