Introdução
No Prandi, Ori é a “divindade da cabeça de cada ser humano e portador da sua individualidade”, e o culto dele “vem sendo reconstituído no Brasil com vigor considerável”. Ao lado dele o mesmo texto põe Ajalá, “entre nós pouco lembrado”, que fabrica as cabeças e é responsável pela existência de bons e maus destinos (Prandi, Mitologia dos Orixás, introdução).
Ori não é Orixá de culto como os demais em todas as fontes, e esta ficha diz o que cada obra diz. Abímbọ́lá trata o Ori como um dos conceitos mais básicos do corpus de Ifá e como a divindade pessoal de cada indivíduo (Abímbọ́lá, Sixteen Great Poems of Ifá, pp. 32–34). Bastide, descrevendo a Bahia dos anos 1950, fala do ori como o espírito do homem, citando René Ribeiro (Bastide, O Candomblé da Bahia, p. 36). Abímbọ́lá chama Ajalá de poder sobrenatural que não é tido como divindade (p. 33); o Prandi o lista entre os orixás e Elbein o chama de “órisá antigo” (Elbein dos Santos, Os Nàgô e a Morte, p. 206).
Grafia: pela contagem, o pt-BR segue o Prandi (Ori 82 contra Orí 3; Ajalá 24). Abímbọ́lá (Ajala 69, sem acento) e o Tratado (Ori 1.135; Ajala 50) dão a forma do en e do es. Mason, Cabrera e Beniste escrevem Orí com acento agudo; esta ficha não acrescenta diacrítico que não tenha copiado de fonte com página.
Características e Elementos
Nos mitos reunidos pelo Prandi, a cabeça é escolhida antes do nascimento: “Cada um escolhe seu ori”, e quem escolhe mal atrai um destino ruim (Prandi, mito “Ajalá modela a cabeça do homem”). Abímbọ́lá resume o conceito: sucesso ou fracasso, vida longa ou morte precoce, riqueza ou pobreza dependem da escolha do Ori, mas escolher bom Ori é escolher uma potencialidade, não o sucesso em si, e cada pessoa ainda precisa trabalhar (Abímbọ́lá, Sixteen Great Poems of Ifá, pp. 32–34).
O mesmo autor diz que o Ori faz de intermediário entre a pessoa e a divindade que ela cultua, e que nada que o Ori não tenha sancionado pode ser feito pelas divindades (p. 34). Elbein dos Santos acrescenta, a partir de um Odu citado por ela, que o Ori é modelado por Ajalá e Orixalá com a ajuda de dezesseis signos, e que a matéria de cada cabeça (o ipori) define a ocupação conveniente e o que é proibido comer (Os Nàgô e a Morte, pp. 206–209).
Sabedoria Filosófica
Leitura nossa, a partir de mitos citados: nos relatos do Prandi, o destino não está em quem tem mais poder, e sim em quem escolhe bem e dá atenção à própria cabeça. No mito dos três amigos, os dois que pegam cabeças bonitas sem esperar por Ajalá vivem em dificuldade, e Ofuapê, que paga a dívida da velha e é orientado, prospera (Prandi, mito “Ajalá faz as cabeças de três amigos”). A beleza da cabeça, diz Ajalá a Ofuapê, não garante sozinha uma vida plena.
Abímbọ́lá faz um alerta parecido sobre o limite do conceito: levado longe demais, pode levar alguém a não se esforçar, como se tudo estivesse decidido; ele insiste que o Ori é só potencial (Sixteen Great Poems of Ifá, p. 34). Nossa leitura: o Ori nas fontes não é fatalismo, é responsabilidade. Nada aqui diz qual é o Ori de alguém, e este site não tem como dizê-lo.
Mitologia e Histórias Sagradas
Ajalá modela a cabeça do homem. Obatalá fez o corpo, mas esqueceu-se da cabeça; Olodumare mandou Ajalá, o oleiro, completar a obra. Ele faz as cabeças de barro e as cozinha: se está bem, faz cabeças boas; se está bêbado, faz cabeças mal cozidas e malformadas. Cada um escolhe a sua (Prandi, mito “Ajalá modela a cabeça do homem”).
Ajalá faz as cabeças de três amigos. Orunmilá, preocupado com a escolha da cabeça do filho Ofuapê, soube pelo babalaô que era preciso um sacrifício de mil búzios. Os amigos Oriseecu e Orilemerê seguiram sem ele e levaram duas belas cabeças da casa de Ajalá, ausente por causa de dívidas; Ofuapê pagou a credora, foi recebido por Ajalá e escolheu a cabeça adequada. Os outros dois ficaram em dificuldade (Prandi, mito “Ajalá faz as cabeças de três amigos”). O Tratado registra a mesma história em Cuba, com Odudua mandando os três à casa de Ajalá e Elegbá abrindo o caminho; as cabeças dos dois apressados se desfazem na chuva (Tratado Enciclopédico de Ifá, pp. 788–789).
Ori faz o que os orixás não fazem. Orunmilá pergunta a Xangô, Oiá, Oxalá, Exu, Ogum, Oxum e a si mesmo quem pode acompanhar o devoto numa viagem sem volta além dos mares; cada um responde que voltaria para casa depois de comer. A resposta é: “Ori”. Quando alguém morre, os instrumentos de cada culto são tratados à parte, mas a cabeça nunca é separada do corpo (Prandi, mito “Ori faz o que os orixás não fazem”).
Ori vence os orixás numa disputa. Uma mulher, aconselhada a dar dois obis à própria cabeça, tem os obis tomados por Xangô; Ori lança Xangô e os outros orixás a cidades distantes. Três anos depois eles voltam, e Ori lhes mostra que cada um agora tem seu culto numa cidade (Prandi, mito “Ori vence os orixás numa disputa”).
Ori decide não nascer de novo. Olorum aceitou o renascimento de Ori, com duas condições, entre elas a de que só Ifá pudesse alterar o destino; Ori achou as condições duras e decidiu nascer uma vez só (Prandi, mito “Ori decide não nascer de novo”).
Relação com os Devotos
O que as fontes registram depende da tradição. Na Bahia dos anos 1950, Bastide descreve o bori (de obori) como o rito de dar comida à cabeça, ligado à saúde e ao fortalecimento do ori, e diz que para alguns adeptos a iniciação se limitava a ele (Bastide, O Candomblé da Bahia, pp. 36–37). O Prandi, em nota ao mito “Ori livra Orunmilá de ameaças”, diz que o bori foi preservado integralmente no candomblé, precede a iniciação e que a cabeça do devoto é louvada antes do orixá; em outra nota diz que, no xirê, os iniciados tocam a cabeça ao cantar para Iemanjá, que no Brasil tomou o lugar de Ajalá (Prandi, notas aos mitos “Ori livra Orunmilá de ameaças” e “Ajalá modela a cabeça do homem”).
Para Cuba, o Tratado fala de “obori eleda” como o que Oriseecu e Orilemerê tiveram de fazer para restaurar as cabeças (Tratado, p. 789). Abímbọ́lá diz que só Ifá pode se pronunciar sobre a escolha do destino, e que consultá-lo é buscar o que o Ori guarda (Sixteen Great Poems of Ifá, p. 33). As obras não descrevem aqui, passo a passo, o rito do bori, e esta ficha não o faz. O que cada caso pede pertence à mesa do babalawo — não a um site.
Simbolismo
As fontes consultadas ligam o Ori à cabeça, ao destino e à individualidade, mas não dão aqui um objeto, uma cor ou um número para ele. O que há são imagens de mitos: a cabeça de barro modelada e cozida por Ajalá (Prandi, mito “Ajalá modela a cabeça do homem”), as cabeças em prateleiras na casa do oleiro (mito “Ajalá faz as cabeças de três amigos”) e a cabeça que vai com o corpo no enterro (mito “Ori faz o que os orixás não fazem”).
Elbein dos Santos descreve, entre os nàgô da Bahia, que a vasilha-assento do Bara individual leva vinte e um cauris, que ela relaciona aos elementos do destino pessoal escolhido pelo ori (Os Nàgô e a Morte, p. 209). Não achamos nas obras consultadas explicação para esse número, e a ficha não inventa uma.
Conclusão
Ori e Ajalá aparecem nas fontes como duas pontas da mesma ideia: a cabeça é feita num lugar e escolhida por cada um, e depois acompanha a pessoa em tudo. As obras divergem sobre o que Ori é para cada tradição (divindade pessoal, espírito, parte do ser humano), e sobre Ajalá, que o Prandi dá como quase esquecido no Brasil.
Este texto é um estudo das fontes citadas, não uma consulta. Para ir além, vale ler os mitos do Prandi inteiros e as páginas de Abímbọ́lá, Elbein dos Santos e do Tratado indicadas acima.
Sabedoria
Só Ori acompanha o devoto numa viagem sem volta (Prandi, mito “Ori faz o que os orixás não fazem”).