Glossário iorubá: 60+ Termos Essenciais de Ifá e Candomblé

Mo júbà! Quem começa a estudar a tradição iorubá mergulha, antes de tudo, num mar de palavras novas: Odu, Axé, ebó, babalawo, patakí. E cada palavra chega escrita de duas ou três formas, porque atravessou o Atlântico mais de uma vez — a grafia do Candomblé brasileiro, a da Santería cubana, a da Nigéria.
Este glossário reúne mais de 60 termos essenciais, organizados por tema e em ordem alfabética. Cada verbete foi conferido nas obras que sustentam este site — o Dicionário Yorubá-Português de Beniste para a língua, Abímbọ́lá e Verger para Ifá e a Nigéria, Prandi para o Brasil, o Tratado Enciclopédico de Ifá para as formas cubanas — e traz, ao fim, a obra e a página onde a definição pode ser conferida. Onde não encontramos fonte, dizemos isso.
Uma nota honesta antes de começar: o iorubá é uma língua tonal — a mesma sílaba muda de sentido conforme o tom. Por isso não inventamos guias de pronúncia. Indicamos as grafias mais comuns e deixamos o som para quem o ensina de viva voz, como a tradição sempre fez.
As Tradições
- Candomblé — a religião brasileira que preservou o culto aos Orixás. A casa de culto é o terreiro, sob a responsabilidade de um pai ou mãe de santo; organiza-se em nações, cada uma com liturgia própria. Verger, Orixás, p. 32; Prandi, Introdução. A história completa →
- Ìṣẹ̀ṣe — designação contemporânea da religião tradicional iorubá praticada na Nigéria. O termo não aparece nas obras clássicas da nossa bibliografia; Beniste registra ìṣẹ̀dáyé, "origem do mundo", da mesma raiz. Beniste, p. 400; lacuna assumida.
- Lucumí — o nome que os iorubás e seus descendentes receberam em Cuba; designa também a língua ritual da Santería. Verger descreve os cabildos de Regla, "irmandades compostas de descendentes de africanos lucumi (iorubá)". Verger, Orixás, p. 72.
- Nação — no Candomblé, a linhagem litúrgica de origem: Ketu (iorubá, também dita nagô), Jeje (fon/ewe, o povo dos voduns) e Angola (bantu). Os tambores já contam a diferença: cravelhas nos nagôs e jejes, cunhas de madeira nos ngomas de origem congolesa e angolana. Verger, Orixás, p. 33; Prandi, s.v. Vodum.
- Regla de Ocha — o nome próprio da tradição cubana dos Orixás, popularmente chamada Santería; a Regla de Ifá é o ramo do sacerdócio de Ifá. "Ocha" é a forma cubana de òrìṣà. Prandi, Introdução; Tratado, passim.
- Umbanda — religião brasileira nascida no século XX, que Verger descreve como "uma mistura entre as religiões africanas, o espiritismo de Allan Kardec e outras elaborações filosófico-religiosas de tendências universalistas". Verger, Orixás, p. 71.
Divindades e Seres
- Egun (Égún, Egúngún; em Cuba, eggún) — o antepassado, o espírito do morto; alguns Orixás são eguns divinizados. Iansã é "a dona dos eguns". Prandi, s.v. Egum e Oiá.
- Exu (Èṣù; em Cuba, Eshu, Elegbá, Elegguá) — a divindade da comunicação entre o céu e a Terra, dos caminhos e da fertilidade; é dele a encruzilhada. Sempre o primeiro a ser saudado. É Exu quem guarda o àṣẹ com que Olodumare criou o mundo — por isso até os outros Orixás precisam dele. Em Cuba, Eleguá nomeia o Orixá e "Exu" fica reservado aos seus aspectos perigosos. Não é o diabo: essa associação é herança colonial. Beniste, p. 218; Abímbọ́lá, p. 5; Prandi, s.v. Exu e Eleguá. Artigo completo →
- Iansã (Ọya; Yánsàn, "a mãe dos nove filhos"; em Cuba, Oyá, Yansá) — Orixá dos ventos, do raio e da tempestade, senhora dos eguns e uma das esposas de Xangô. Prandi, s.v. Iansã e Oiá. Artigo →
- Iemanjá (Yemọja; em Cuba, Yemayá) — dona das águas e mãe dos Orixás. Na Nigéria é cultuada no rio Ògùn, em Abẹ́òkúta; na diáspora tornou-se a senhora do mar. Beniste, p. 562; Prandi, s.v. Iemanjá. Artigo →
- Irunmole (irúnmọlẹ̀, imọlẹ̀) — as divindades que habitaram a Terra nos tempos primordiais e participaram da Criação. Diz-se que são 401 — ou seja, incontáveis. Prandi, "Odudua cai na armadilha que ele mesmo prepara para Oxalá"; Beniste, p. 225 (s.v. ẹbọra).
- Logunedé (Lógun Ède) — Orixá da caça e da pesca, "filho de Erinlé ou Oxóssi com Oxum": Erinlé na Nigéria e em Cuba (onde se chama Inlé), Oxóssi no Brasil, que tomou o lugar do pai em muitos mitos. Prandi, s.v. Logum Edé e Erinlé. Artigo →
- Nanã Burukú (Nàná Bùrúkú) — Orixá do fundo dos lagos, dona da lama com que Obatalá modelou o ser humano; mãe de Obaluaiyê e Oxumaré, com quem forma a tríade de voduns do Daomé incorporada ao panteão dos Orixás. Prandi, s.v. Nanã; Verger, Orixás, p. 75. Artigo →
- Obá (Ọ̀bà; em Cuba, Obba) — Orixá do rio Obá, uma das esposas de Xangô. Não confundir com ọba, "rei". Prandi, s.v. Obá. Artigo →
- Obaluaiyê (Ọbalúayé, "Rei Dono da Terra"; Omolu, "Filho do Senhor"; Ṣànpọ̀nná, cujo nome é perigoso pronunciar; em Cuba, Babalú Ayé; na linhagem arará, Azowanu) — o senhor da terra, das doenças contagiosas e da cura. Seu culto, como o de Nanã, é anterior à chegada de Ogum: os sacrifícios que lhe são feitos não usam ferro. Verger, Orixás, p. 75; Prandi, s.v. Obaluaê; Tratado, p. 64 e 310. Artigo →
- Obatalá (Ọbàtálá, "Rei do Pano Branco"; Òrìṣàńlá, "o grande Orixá"; no Brasil, Oxalá, com as qualidades Oxalufã, o velho, e Oxaguiã, o jovem guerreiro) — o Orixá da Criação, que modelou o ser humano; considerado o maior dos Orixás. Prandi, s.v. Obatalá, Oxalá, Oxalufã e Oxaguiã; Beniste, p. 592. Artigo →
- Ogum (Ògún; em Cuba, Ogún) — "a divindade do ferro e das batalhas", da metalurgia, da agricultura e da guerra. Beniste, p. 562; Prandi, s.v. Ogum. Artigo →
- Olodumare (Olódùmarè; também Olórun, "Dono do Céu") — o Ser Supremo, "Deus, o Onipotente", que criou os Orixás e lhes deu as atribuições de criar e reger o mundo. Beniste, p. 574; Prandi, s.v. Olodumare e Olorum.
- Olofin (Olófin) — em iorubá, "legislador, juiz"; na Nigéria, um título régio — Prandi o dá ao rei de Oió, Abímbọ́lá o identifica com Odùduwà. Em Cuba, o nome pelo qual a tradição se refere ao Deus Supremo. Beniste, p. 574; Abímbọ́lá, p. 343; Prandi, s.v. Olofim.
- Olokun (Olókun) — a divindade do oceano profundo; feminina para Beniste, mãe de Iemanjá para Prandi, masculina em outras tradições. No Brasil sobrevive como uma qualidade de Iemanjá. Beniste, p. 575; Prandi, s.v. Olocum.
- Orixá (òrìṣà; grafia internacional Orisha; em Cuba, Ocha) — "divindades representadas pelas energias da natureza, forças que alimentam a vida na terra, agindo de forma intermediária entre Deus e as pessoas, de quem recebem uma forma de culto e oferendas". Beniste, p. 592; Prandi, s.v. Orixá.
- Orunmilá (Ọ̀rúnmìlà; em Cuba, Orula, Orunla) — a divindade da sabedoria e do oráculo de Ifá, "testemunha do destino" (Eléèrì Ìpín). Ifá é, a rigor, o nome do sistema de consulta, e Orunmilá o seu senhor. Importantíssimo em Cuba, quase esquecido no Brasil. Beniste, p. 625; Verger, Orixás, p. 56; Prandi, s.v. Orunmilá.
- Ossain (Ọ̀sányìn; em Cuba, Osain) — o Orixá das folhas, que cura com as ervas. "Nenhuma cerimônia pode ser feita sem a sua presença": é ele o detentor do àṣẹ das plantas. Prandi, s.v. Ossaim; Verger, Orixás, p. 53. As folhas sagradas →
- Aroni (Àrònì) — o duende de uma perna só que habita a floresta em companhia de Ossain e conhece o uso medicinal das ervas. Prandi, s.v. Aroni; Verger, Orixás, p. 54.
- Oxóssi (Ọ̀ṣọ́ọ̀sì; em Cuba, Oshosi, Ochosi) — o Orixá da caça, rei de Ketu. Prandi, s.v. Oxóssi; Verger, Orixás, p. 3. Artigo →
- Oxum (Ọ̀ṣun; em Cuba, Oshun, Ochún) — Orixá do rio Oxum, deusa das águas doces, do ouro e da beleza; uma das esposas de Xangô. Prandi, s.v. Oxum. Artigo →
- Oxumaré (Òṣùmàrè) — a serpente-arco-íris, que recolhe a água caída na chuva e a devolve às nuvens; macho e fêmea ao mesmo tempo, símbolo da continuidade. Enrola-se em volta da Terra para que ela não se desagregue. Verger, Orixás, p. 73; Prandi, s.v. Oxumarê. Artigo →
- Xangô (Ṣàngó; em Cuba, Shango, Changó) — Orixá do trovão e da justiça; "teria sido rei de Cossô e o quarto rei de Oió". Prandi, s.v. Xangô. Artigo →
Conceitos Filosóficos
- Axé (àṣẹ; Asé, Axé; em Cuba, ashé) — "força, poder, o elemento que estrutura uma sociedade"; a força vital que transforma o mundo. Também a palavra que sela uma prece: Àṣẹ dọwọ́ Olódùmarè, "que assim seja — o poder está nas mãos de Deus". Beniste, p. 128; Prandi, s.v. Axé. O que é Axé →
- Aiyé (ayé) — o mundo, o planeta, o plano dos vivos; o oposto de Orun. Beniste, p. 144; Prandi, s.v. Aiê.
- Ewó (èèwọ̀) — o tabu, a interdição: "uma forma de manter o equilíbrio entre o mundo material e o mundo espiritual, por meio de determinadas regras de conduta". Cada Orixá — e cada Odu — tem os seus. Beniste, p. 220; Prandi, s.v. Euó.
- Ibi — o mal, o infortúnio, o aviso — o contrário de ire. Beniste, p. 331.
- Ire (ire, oore) — a bondade, a bênção, a sorte. Ẹ kú orí're o! — "boa sorte!", literalmente "salve a sua boa cabeça". Beniste, p. 388.
- Itan (ìtàn) — a história, a narrativa. Para os iorubás, "nada é novidade, tudo o que acontece já teria acontecido antes": reconhecer no mito o que se repete hoje é a chave do oráculo. Beniste, p. 590 (s.v. ọpìtàn); Prandi, Introdução.
- Ìwà Pẹ̀lẹ́ — ìwà é "caráter, conduta, comportamento"; ìwà pẹ̀lẹ́, a gentileza, o caráter brando. Para Ifá, o valor mais alto de uma vida: Ènìà nílàti tójú ìwà rẹ̀, "a pessoa precisa cuidar da sua maneira de ser". Beniste, p. 408-409; Abímbọ́lá, p. 132. Artigo →
- Odu (odù; em Cuba, oddun) — cada um dos signos do oráculo de Ifá, "que revela histórias em forma de poemas, que servem de instruções diante de uma consulta". São 16 principais (os Meji) que, combinados dois a dois, formam 256. Na África os poemas são recitados de cor; em Cuba, guardados em cadernos; no Brasil conservaram-se os nomes e os presságios, e os poemas se perderam. Beniste, p. 558; Abímbọ́lá, p. 14; Prandi, s.v. Odu. O que é Ifá →
- Omoluo (ọmọ odù, àmúlù; em Cuba, omoluo) — "os 240 signos menores de Ifá, quando os sinais da coluna da direita são diferentes dos da esquerda" — cada um nascido da combinação de dois Meji distintos. Beniste, p. 619; Abímbọ́lá, p. 14; Tratado, p. 398.
- Orí — a cabeça; e a "cabeça interior", a divindade pessoal de cada indivíduo, que escolhe o próprio destino antes de nascer e recebe oferendas no borí. Ter orí're, "boa cabeça", é ter sorte. Beniste, p. 591-592; Prandi, s.v. Ori; Abímbọ́lá, p. 158. Orí e responsabilidade →
- Orun (ọ̀run) — o céu, o plano divino onde estão as divindades e os espíritos, dividido em setores; para os iorubás, nove mundos paralelos. De onde tudo vem e para onde tudo retorna. Beniste, p. 625; Prandi, s.v. Orum.
- Osobo (em Cuba; osogbo) — na Regla de Ifá, o nome do ibi: o caminho que pede cuidado, oposto ao ire. Não confundir com Òṣogbo, a cidade nigeriana de Oxum. Tratado, p. 15 e 18; Verger, Orixás, p. 63.
- Patakí (patakín) — em Cuba, o nome das histórias dos Odus e dos Orixás, "que os babalaôs mantêm escritas em cadernos que conservam em segredo". Tratado, p. 23; Prandi, s.v. Odu.
- Sùúrù — a paciência. Sùúrù òògùn ayé: "a paciência é o remédio do mundo". Beniste, p. 144.
Títulos e Sacerdócios
- Awo — "segredo, mistério"; o nome do próprio culto de Ifá, uma sociedade semissecreta, e por extensão quem foi iniciado nele. Abímbọ́lá, p. 5-6; Beniste, p. 126 (s.v. aṣawo).
- Babalawo (bàbáláwo = bàbá + ní + awo, "aquele que conhece os mistérios") — o sacerdote de Ifá, "pai do segredo", que lê o Opele e os Ikin. Sua iniciação é intelectual, sem transe: anos de memorização dos versos dos 256 Odus. Beniste, p. 148; Abímbọ́lá, p. 5; Verger, Orixás, p. 56. Como funciona →
- Babalorixá (bàbálórìṣà, "pai que tem o Orixá") — o sacerdote que dirige um terreiro de Candomblé; o "pai de santo", também chamado zelador ou babalaxé. Beniste, p. 148; Verger, Orixás, p. 32.
- Iyalorixá (ìyálórìṣà) — a sacerdotisa que dirige um terreiro; a "mãe de santo". O oráculo dela é o merindilogun — um ofício distinto do babalawo, não uma versão dele: no Brasil, "onde os babalaôs se extinguiram", o jogo passou aos pais e mães de santo. Beniste, p. 413; Verger, Orixás, p. 32; Prandi, Introdução.
- Ìyánífá — a mulher consagrada em Ifá, que opera o oráculo, na Ìṣẹ̀ṣe nigeriana. O título não aparece em Abímbọ́lá (1975) nem no Tratado; nem todas as linhagens o reconhecem, e o debate é vivo. Lacuna assumida. Quem pode ser →
- Omo Awo (ọmọ awo, "filho do mistério") — o aprendiz de Ifá: "o conhecimento é transmitido do babalaô ao omo awo, do mestre ao discípulo". Verger, Ewé, p. 21; Tratado, passim.
- Padrino / Madrina — na tradição cubana, quem inicia e acompanha o afilhado; a relação que estrutura a linhagem. Em iorubá, bàbá ìsàmì. Tratado, passim; Beniste, p. 148.
O Oráculo e Seus Instrumentos
- Ikin — os 16 coquinhos do dendezeiro consagrados a Ifá, "que simbolizam a personalidade de Orunmilá": só servem os que têm quatro olhos. É o instrumento mais antigo — com eles Orunmilá se substituiu na Terra ao voltar ao Orun. Um 17º, o odùṣọ́, vigia o jogo sem participar dele. Beniste, p. 211, 367 e 559; Abímbọ́lá, p. 12-13.
- Ikofá — na Regla de Ocha, a recepção de Orunmilá pelas mulheres; o par de Awofakán. Tratado, p. 14 e 1762.
- Itefá — a cerimônia de iniciação que revela o Odu de nascimento — uma vez na vida. Não é uma consulta. "Todo indivíduo nasceu ligado a um desses 256 odù": no nascimento, os pais pedem ao babalaô que o indique. O termo é da tradição nigeriana; em Cuba diz-se "fazer Ifá". Verger, Orixás, p. 56. O Odu de nascimento →
- Iyerosun (ìyẹ̀ròsùn; em Cuba, iyefá) — "pó vegetal da árvore ìròsùn, usado para marcar os traços de Ifá": produzido por cupins, amarelado, espalhado sobre o opón. Beniste, p. 416; Abímbọ́lá, p. 16-17.
- Mão de Orunmilá (Mano de Orula, Awofakán) — na tradição cubana, a primeira recepção de Orunmilá pelos homens: dezesseis ikin entregues numa cerimônia. Tratado, p. 34 e 1416.
- Merindilogun (mẹ́rìndínlógún, "dezesseis"; em Cuba, dilogún) — o jogo de búzios: o oráculo dos Orixás, jogado por iyalorixás e babalorixás. Na iniciação descrita por Verger, o iniciado recebe dezesseis búzios nas mãos e os lança para descobrir o odù que "governará a vida" dele. Não é o oráculo de Ifá — são ofícios distintos. Verger, Orixás, p. 27-28; Prandi, Introdução; Tratado, passim.
- Obí (obì) — a noz-de-cola, "usada em ritos religiosos"; partida em gomos, é o oráculo das perguntas diretas. Em Cuba, substituída pelo coco. Beniste, p. 556; Prandi, s.v. Obi.
- Opele (ọ̀pẹ̀lẹ̀; em Cuba, okpele) — "corrente intercalada com oito sementes côncavas": o instrumento de trabalho do babalawo, que a lança e lê de uma vez o signo. Mais rápido que os ikin, reservados às ocasiões maiores. Beniste, p. 622; Abímbọ́lá, p. 15-16. Como funciona →
- Opón Ifá (ọpọ́n Ifá) — "a bandeja na qual são riscados os traços dos odù"; a borda entalhada traz o rosto de Exu, que leva e traz as mensagens. Beniste, p. 622; Abímbọ́lá, p. 18.
Ritual, Culto e Comidas Votivas
- Abadô — milho torrado, comida votiva de Obaluaiyê no Candomblé. Uso corrente nos terreiros; o termo não consta da nossa bibliografia.
- Aberém — "milho cozido enrolado em folhas de bananeira", servido a Obaluaiyê no olubajé, a festa anual das suas comidas; nos terreiros, também a Nanã. Não é pipoca. Verger, Orixás, p. 80.
- Acarajé (àkàrà) — "bolinho frito feito de pasta de feijão-fradinho", no azeite de dendê; comida de Iansã. Beniste, p. 84; Prandi, s.v. Acarajé; Verger, Orixás, p. 19. A história →
- Adimú — em Cuba, a oferenda simples de comida, sem sacrifício animal. Tratado, p. 234 e 249.
- Amalá (àmàlà) — o prato de quiabo com camarão seco e dendê, comida predileta de Xangô; na Bahia, também chamado caruru. Prandi, s.v. Amalá; Verger, Orixás, p. 19 e 88. Artigo →
- Atotô — a saudação de Obaluaiyê, com que o Orixá é acolhido ao se manifestar: um pedido de silêncio e reverência. Verger, Orixás, p. 80; Prandi, mitos de Obaluaê. Artigo →
- Axoxô — milho cozido com coco, comida de Oxóssi no Candomblé. Uso corrente nos terreiros; o termo não consta da nossa bibliografia.
- Ebó (ẹbọ; em Cuba, ebbó) — "oferenda ou sacrifício feito às divindades"; a ação ritual que o oráculo prescreve para reequilibrar um caminho. "Fazer o sacrifício traz bênçãos; negligenciá-lo não abençoa ninguém", dizem os versos de Ifá. Indicá-lo é ofício do sacerdote — sempre. Beniste, p. 225; Abímbọ́lá, p. 41; Prandi, s.v. Ebó.
- Ilê (ilé; Terreiro) — a casa: ilé é "casa" em iorubá (ilé ọba, palácio; ilé Ọlọ́run, igreja) e ilẹ̀, o chão, a terra. No Brasil, a casa de culto é o terreiro. Beniste, p. 374; Verger, Orixás, p. 32.
- Omolocum — feijão-fradinho com ovos, comida de Oxum no Candomblé. Uso corrente nos terreiros; o termo não consta da nossa bibliografia.
- Oríkì — "título, nome, louvação que ressalta fatos de uma sociedade, de uma família ou de uma pessoa": a poesia que canta os nomes e os feitos de um Orixá. Beniste, p. 591; Prandi, s.v. Oriqui; Verger, Orixás, p. 38.
- Ofó (ofọ̀) — "cantiga de encantamento": as frases, muitas vezes poéticas, que enunciam a qualidade de uma folha e a fazem trabalhar. Sem o seu ofó, a folha é só planta. Prandi, s.v. Ofó; Verger, Ewé, p. 18.
- Pipoca (dobúru) — a comida que acalma Obaluaiyê: foi com pipoca que os mahis apaziguaram Xapanã, e "pipocas acalmam Obaluaê", repete o mito. As flores que cobrem as feridas. O nome dobúru é de uso corrente no Candomblé; não consta da nossa bibliografia. Verger, Orixás, p. 75; Prandi, mitos de Obaluaê. Artigo →
- Xirê (ṣiré, "brincar", de iré, "jogo") — a roda de cantos e danças que abre a festa pública do Candomblé, saudando os Orixás em ordem; antes dele faz-se o padê de Exu. Beniste, p. 388; Prandi, s.v. Xirê; Verger, Orixás, p. 34.
Um Vocabulário Vivo
Nenhuma dessas palavras é peça de museu. Elas são faladas todos os dias — em Lagos, em Havana, em Salvador, e nas casas da diáspora pelo mundo. Por isso as grafias variam, e vão continuar variando: a mesma raiz veste roupas diferentes conforme o século e a margem do Atlântico em que desembarcou.
Quando você encontrar uma dessas palavras escrita de outra forma — num livro, num terreiro, numa conversa — não é erro: é a história da palavra. Este glossário segue as grafias usadas neste site e aponta as variantes mais comuns; o resto é a riqueza de uma tradição que nunca parou de falar.
Fontes deste glossário
Cada verbete indica a obra e a página onde pode ser conferido. As referências completas estão em Fontes.
- Beniste — José Beniste, Dicionário Yorubá-Português. A grafia yorubá com diacríticos e as definições da língua.
- Abímbọ́lá — Wándé Abímbọ́lá, Sixteen Great Poems of Ifá (UNESCO, 1975). Os instrumentos e o culto de Ifá na Nigéria.
- Verger, Orixás — Pierre Fatumbi Verger, Orixás: deuses iorubás na África e no Novo Mundo. Os Orixás na Nigéria, na Bahia e em Cuba.
- Verger, Ewé — Pierre Fatumbi Verger, Ewé: o uso das plantas na sociedade iorubá. As folhas e os ofó.
- Prandi — Reginaldo Prandi, Mitologia dos Orixás. Os mitos e o glossário do Candomblé; "s.v." remete ao verbete do glossário dele.
- Tratado — Tratado Enciclopédico de Ifá (compilação lucumí, ed. Biblioteca ALABI). As formas cubanas, citadas pela página.
Quatro termos — abadô, axoxô, dobúru e omolocum — são de uso corrente nos terreiros e não aparecem em nenhuma dessas obras. Preferimos dizer isso a fingir uma fonte.
Que cada palavra nova seja uma porta — e que atrás de cada porta você encontre o respeito que esta tradição merece.
O que você leu aqui tem raiz nos 256 Odus de Ifá — o corpus que estudamos verso a verso. Leia-os como contemplação: divinação real pertence à mesa de um babalawo consagrado.
Versão de consulta, com âncora por termo e a fonte de cada verbete: abrir o glossário →
Fontes consultadas
- Dicionário Yorubá-Português — José Beniste
- Sixteen Great Poems of Ifá — Wándé Abímbọ́lá
- Orixás — Pierre Fatumbi Verger
- Ewé — Pierre Fatumbi Verger
- Mitologia dos Orixás — Reginaldo Prandi
- Tratado Enciclopédico de Ifá
Quem escreve
- Pablo de Lima (Awofakan)
- Thaiana de Lima (Ikofá)
Um casal iniciado em Ifá na linhagem cubana — Regla de Ocha / Ifá.
Conheça os autores →Última revisão:
Receba a sabedoria no seu email
Um novo artigo por semana sobre Orixás, Odus e filosofia iorubá. Sem spam.
Cancele quando quiser, com um clique em qualquer email.
Comentários
Carregando comentários...
Você precisa fazer login para comentar.


