Euá

Fontes, névoa e cemitério

Nomes nas tradições

Iorubá (Nigéria)
Yèwá
Lucumí (Cuba)
Yewá
Candomblé (Brasil)
Euá

Introdução

Euá é, nas palavras do glossário do Prandi, “orixá das fontes; dona dos cemitérios” (Prandi, Mitologia dos Orixás, glossário, verbete “Euá”). A mesma divindade aparece em Cuba como Yewá, e Verger a anota na Bahia como “Eua (Yewa)”, uma das sete Iemanjás, um rio africano que corre paralelo ao Ògùn e que, segundo ele, muitas vezes se confunde com Iemanjá em certas lendas (Verger, Orixás, p. 69). Esta ficha segue a grafia das fontes, e a contagem decide. Na obra brasileira que o site usa para os mitos, o Prandi, “Euá” aparece 127 vezes e “Ewá” nenhuma; Verger escreve “Eua” e “Yewa”. No Tratado Enciclopédico de Ifá, que fala da tradição cubana, “Yewa” aparece 176 vezes; em Cabrera, Yewá é a forma dominante. Nenhuma das fontes consultadas diz que Euá e “Ewá” são o mesmo nome; por isso a ficha não afirma essa equivalência. As fontes não concordam sobre quem ela é, e a ficha mostra isso em vez de escolher. Nos mitos do Prandi, Euá é filha de Nanã em dois relatos e filha de Obatalá em outros dois. Em Verger, na Bahia, ela é uma das faces de Iemanjá. Em Cuba, Cabrera e Angarica falam de uma santa virgem e severa. O que se lê abaixo diz sempre de que tradição a frase fala.

Características e Elementos

No Candomblé, o Prandi a apresenta como orixá feminino das fontes, ligada ao solo onde repousam os mortos. Nos mitos que ele reúne, a água, a névoa e o horizonte são o seu território: ela vira nascente, vira bruma, e é o lugar “onde o céu encontra a terra” — e é dali que, no mito da sua fuga com Oxumaré, ela faz nascer a noite com a cabaça adô (Prandi, mito “Euá é escondida por seu irmão Oxumarê”). Em Cuba, Cabrera registra Yewá como “Nuestra Señora de los Desamparados”, virgem, que proíbe às filhas todo comércio sexual — por isso, diz ela, suas servidoras são sempre velhas, virgens ou estéreis (Cabrera, El Monte, PDF p. 32). Angarica a descreve como “señorita”, a virgem africana que representa a vida, e a lista entre os orixás de origem, com a glosa “la vida en este mundo” (Angarica, Manual del Oriaté, PDF pp. 8 e 31). Mason a coloca entre as santas sem filhos, com Nana Buruku e Obá, “calladas, reservadas, misteriosas” (Mason, Orin Òrìṣà, p. 271, páginas do PDF). Cores, dia da semana e número: as fontes que consultamos para esta ficha não os registram de forma que pudéssemos conferir na página, e preferimos deixar a lacuna dita a preenchê-la.

Sabedoria Filosófica

Leitura nossa, a partir de mitos citados: Euá é, em quase todos os relatos, uma figura que vive nos limiares — entre a água e a seca, entre a vida e a morte, entre o dia e a noite. No mito em que ela se transforma em nascente para que os filhos bebam, o que sobra dela é uma água que corre e vira rio (Prandi, mito “Euá transforma-se numa fonte e sacia a sede dos filhos”). Nada nele diz que ela deixou de ser Euá; mudou a forma para continuar cuidando. O outro lado dos limiares é o silêncio. No mito do cemitério, a mulher expulsa de casa cobre o rosto e vai viver entre os mortos, e “ninguém sabe quem é a mulher do cemitério” (Prandi, mito “Euá é expulsa de casa e vai viver no cemitério”). Lemos aí uma sabedoria sobre o que não se explica: há presenças que não pedem para ser entendidas por inteiro, e o estudo respeita essa reserva. Isto é interpretação, não doutrina das fontes.

Mitologia e Histórias Sagradas

Fonte e água. Uma mulher que sustentava dois filhos vendendo lenha perdeu-se com eles na floresta; sem achar água, implorou a Olodumare e deitou-se ao lado das crianças. Ali mesmo virou uma nascente; a água jorrou, matou a sede dos filhos, formou uma lagoa e depois um rio, o rio Euá (Prandi, mito “Euá transforma-se numa fonte e sacia a sede dos filhos”). Névoa. Neste relato Euá é filha de Nanã, muito disputada: tantos pretendentes se matavam por ela que o reino de Nanã ficou triste e seco. Euá foi a Orunmilá, fez os ebós que Ifá indicou e começou a se desfazer até virar bruma branca, espalhada pela Terra; Olodumare determinou então que ela zelasse pelos amantes indecisos (Prandi, mito “Euá transforma-se na névoa”). A Morte. Orunmilá fugia de Icu, a Morte, e encontrou Euá lavando roupa à margem do rio. Ela o escondeu sob a tábua de lavar, que era na verdade um tabuleiro de Ifá virado, e mandou a Morte embora dizendo que ele já ia muito longe. Depois se casou com ele, e todos cantaram que Euá livra da Morte (Prandi, mito “Euá livra Orunmilá da perseguição da Morte”). O cemitério. Em outro relato, Euá é filha de Obatalá, cai em desgraça com o pai por ter tido um filho em segredo e é expulsa de casa. Cobre o rosto com uma saia bordada de búzios e vai morar no cemitério. O filho, criado por Iemanjá, recebe o nome de Xangô (Prandi, mito “Euá é expulsa de casa e vai viver no cemitério”). Num mito próprio, Xangô dança de manhã entre a névoa sem saber que está num cemitério; uma figura feminina lhe diz que ali ela governa, e Orunmilá depois lhe conta que era Euá — desde então Xangô e seus seguidores não entram em cemitérios (Prandi, mito “Euá atemoriza Xangô no cemitério”). Cabrera registra em Cuba a mesma cena com Changó e Yewá (Cabrera, El Monte, PDF p. 125). O Prandi traz ainda o relato em que Omulu, ciumento, a prende num formigueiro, e aquele em que ela vive escondida atrás do horizonte (Prandi, mitos “Euá é presa no formigueiro por Omulu” e “Euá é escondida por seu irmão Oxumarê”).

Relação com os Devotos

O que as fontes registram sobre o culto depende da tradição. No Candomblé, o Prandi a inclui no panteão que descreve e a lê como senhora de fontes e do solo dos mortos (Prandi, glossário, verbete “Euá”). Em Cuba, Cabrera diz que Yewá é pouco mencionada, que se teme a severidade de divindades como ela e que nem o nome devia ser pronunciado sem antes tocar a terra com as pontas dos dedos (Cabrera, El Monte, PDF pp. 21 e 32). É o que a informante registra para aquele tempo e aquele lugar, não uma instrução ao leitor. O que cada caso pede pertence à mesa do babalawo — não a um site.

Simbolismo

Os símbolos que as fontes dão a Euá são poucos e sempre ligados a mito: a cabaça adô, com a qual ela faz cair a noite no horizonte (Prandi, mito “Euá é escondida por seu irmão Oxumarê”); a saia bordada de búzios com que cobre o rosto (Prandi, mito “Euá é expulsa de casa e vai viver no cemitério”); a palha da costa vermelha com que Omulu a cobre (Prandi, mito “Euá é presa no formigueiro por Omulu”). O verbete do glossário do Prandi para o termo ado diz que é também a cabaça com búzios que Euá leva na mão. Há lacunas que dizemos: as fontes consultadas não explicam número, cores nem dia da semana de Euá de modo que pudéssemos conferir, e a ficha não os supre. Também não há, aqui, nenhuma cantiga ou rezo transcrito.

Conclusão

Euá reúne, nas fontes, imagens que não se juntam fácil: a fonte que salva, a névoa que desfaz, a mulher que engana a Morte e a dona do cemitério. As próprias obras divergem sobre a sua família e o seu lugar — filha de Nanã ou de Obatalá, face de Iemanjá ou orixá própria, mãe ou virgem — e essa divergência é parte do que há para estudar. Este texto é um estudo das fontes citadas, não uma consulta. Quem quiser ir além deve ler os mitos do Prandi inteiros e as páginas de Verger e Cabrera indicadas acima.

Sabedoria

Quem se transforma para salvar os seus ainda é quem é.

Conhece uma variante desta tradição que não está aqui, ou encontrou algo a corrigir? Escreva para nós — lemos tudo.

Perguntas frequentes

Quem é Euá?+
Orixá das fontes e dona dos cemitérios, entre a água e a morte.
De que Euá é dono?+
Fontes, névoa e cemitério
Quais são as fontes desta página sobre Euá?+
Mitologia dos Orixás, Reginaldo Prandi; Orixás, Pierre Fatumbi Verger, p. 69; El Monte, Lydia Cabrera, pp. 21, 32 e 125 (páginas do PDF)

Fontes consultadas

  • Mitologia dos Orixás — Reginaldo Prandi
  • Orixás — Pierre Fatumbi Verger, p. 69
  • El Monte — Lydia Cabrera, pp. 21, 32 e 125 (páginas do PDF)
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Quem escreve

  • Pablo de Lima (Awofakan)
  • Thaiana de Lima (Ikofá)

Um casal iniciado em Ifá na linhagem cubana — Regla de Ocha / Ifá.

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