Calendário das festas de Orixás: o ano no Brasil e em Cuba

Quem procura "o calendário das festas de Orixá" costuma esperar uma tabela única, com uma data por divindade. As fontes que temos mostram outra coisa: pelo menos duas listas de datas, uma brasileira e uma cubana, que usam o mesmo calendário católico e chegam a respostas diferentes. E, por baixo delas, um terceiro calendário, o de cada casa, que nenhuma tabela resolve. Este guia põe as duas listas lado a lado, com página, e explica por que a data que vale é a do terreiro.
Por que as festas caem em dia de santo
Roger Bastide, em O Candomblé da Bahia (1961), começa pelo choque entre dois calendários. O africano esbarrava no católico, imposto pelo senhor ao escravizado; para dançar em paz, o escravizado celebrava diante de um altar católico que lhe servia de disfarce, e cada divindade iorubá acabou ligada a um santo, com a festa transferida para o dia dele (Bastide, pp. 103–104). É daí que nasce o que ele chama de "calendário ordinário, mas africanizado". O sincretismo em si já tratamos em outro texto, Sincretismo afro-brasileiro; aqui interessa a consequência prática: as datas.
A lista brasileira de Bastide
A lista que Bastide reproduz tem treze datas (Bastide, p. 104):
| Data | Dia de santo | Festa |
|---|---|---|
| 20 de janeiro | São Sebastião | Obaluaiê (Omolu) |
| 2 de fevereiro | Purificação | Oxum e Iemanjá |
| 23 de abril | São Jorge | Oxóssi |
| 13 de junho | Santo Antônio | Ogum |
| 24 de junho | São João Batista | Xangô Afonjá |
| 29 de junho | São Pedro e São Paulo | Orixá-la (Oxalá) |
| 26 de julho | Sant'Ana | Nanã |
| 24 de agosto | São Bartolomeu | Oxumarê |
| 27 de setembro | São Cosme e São Damião | os Gêmeos (Ibeji) |
| 30 de setembro | São Jerônimo | Xangô |
| 2 de novembro | Finados | os Eguns |
| 4 de dezembro | Santa Bárbara | Iansã |
| 8 de dezembro | Imaculada Conceição | Oxum ou Iemanjá |
Logo depois da tabela vem a ressalva que quase sempre se perde quando ela é copiada: segundo Bastide, essa lista vale mais para os iorubás de Pernambuco do que para os da Bahia, onde aparece sobretudo nos candomblés de nação banto (Bastide, pp. 104–105). Numa nota, ele registra outros calendários de casas do Recife, todos diferentes entre si, e um episódio revelador: quando o Serviço de Higiene Mental tentou limitar as festas a dezoito dias fixos, os babalorixás protestaram, e o acordo final manteve o teto de dezoito, mas deixou cada casa livre para distribuí-las no ano (p. 105).
Na Bahia, cada terreiro tem o seu tempo
Para os candomblés queto, ijexá e nagô da Bahia, Bastide é direto: como as casas são autônomas, há tantos tempos sagrados quanto terreiros, e cada um se abre uma vez por ano para celebrar todos os Orixás (p. 105). Ele acrescenta que as grandes festas da Nigéria se concentram em maio e junho, no começo das chuvas, e que na maioria dos candomblés elas passaram para setembro a dezembro, o começo do verão do outro lado do equador (p. 106).
Os exemplos que ele dá mostram a variação. O Gantois fazia a sua estação no fim de setembro, abrindo com a lavagem e fechando com a cerimônia do baiani, o mais perto possível de 30 de setembro, dia de São Jerônimo (pp. 106–107). Num candomblé de Ogum, as festas iam da segunda semana de setembro à primeira de dezembro, só aos domingos; na casa de Oxumarê, eram em janeiro e no começo de fevereiro (pp. 107–108). E uma casa de luto não faz festa: fica fechada por um ano (p. 108).
O ano começa com as águas de Oxalá
O ano do candomblé, diz Bastide, não vai de janeiro a dezembro. Começa no fim de agosto ou na primeira sexta-feira de setembro, conforme o terreiro, e a cerimônia que o abre tinha dois nomes antigos: "inhame novo" e "água de Oxalá" (Bastide, p. 109). Pierre Verger descreve o ciclo em Orixás: em certos terreiros, sobretudo os de origem queto, a viagem de Oxalufã até o reino de Xangô e a sua prisão injusta são lembradas por três semanas de festas. Numa sexta-feira os objetos sagrados de Oxalá saem do peji; na sexta seguinte vêm as Águas de Oxalá, buscadas em silêncio por gente vestida de branco; o ciclo fecha num domingo, com o Pilão de Oxaguiã (Verger, Orixás, pp. 105–106).
Verger liga a esse rito a lavagem do chão da Basílica do Senhor do Bonfim, na quinta-feira que antecede o domingo do Bonfim, e a chama de versão sincretizada das Águas de Oxalá (p. 106).
O ano também tem um intervalo. Do Carnaval ao fim da Semana Santa, diz Bastide, corre um período em que se acredita que os Orixás voltaram para a África; os candomblés fecham as portas na Semana Santa, e antes disso se faz o lorogun, a expulsão provisória dos Orixás, vista como a partida deles para a guerra (Bastide, pp. 113–115).
Duas festas com data no Brasil
Duas datas brasileiras aparecem em Verger com descrição própria. No 2 de fevereiro, o presente para Iemanjá na praia do Rio Vermelho, em Salvador, reúne uma multidão; e, no Rio de Janeiro, em Santos e em Porto Alegre, a noite de 31 de dezembro leva centenas de milhares de seguidores da Umbanda às praias (Verger, Orixás, p. 71). Já a festa anual de Obaluaiê, o Olubajé, não tem data em Verger: ele registra o nome, as comidas e a segunda-feira como dia da semana do Orixá (p. 80).
A lista cubana de Brown
Para Cuba, a lista mais completa entre as nossas fontes está em David H. Brown, Santería Enthroned (2003), num apêndice de 20 linhas, cada uma com Orixá, santo e data (Brown, p. 305). Doze dessas linhas, na grafia dele:
| Orixá (Brown) | Santo | Data |
|---|---|---|
| Oyá | Candelaria / Santa Teresa | 2 de fevereiro |
| Eleguá | San Antonio / El Niño de Atocha | 13 de junho |
| Ochosi | San Norberto | 16 de junho |
| Naná Burukú | Nuestra Señora del Carmen | 16 de junho |
| Ogún | San Pedro | 29 de junho |
| Yemayá | Virgen de Regla | 7 de setembro |
| Ochún | Caridad del Cobre | 8 a 12 de setembro |
| Obatalá | Virgen de las Mercedes | 24 de setembro |
| Los Ibeyi | Santos Cosme y Damián | 26 de setembro |
| Orula | San Francisco de Asís | 4 de outubro |
| Changó | Santa Bárbara | 4 de dezembro |
| Babalú Ayé | San Lázaro | 17 de dezembro |
Duas dessas festas têm descrição em outras páginas. O Cabildo Africano Lucumí celebrava em 1900 a sua padroeira, Santa Bárbara, em 4 de dezembro, com missa, procissão e tambor para Changó (Brown, p. 66); e Lydia Cabrera, em El Monte, escreve que em toda Cuba Changó é festejado oficialmente nesse dia (Cabrera, p. 255). A da Virgen de Regla é o caso em que as fontes não concordam no dia: Brown dá 7 de setembro (pp. 66 e 305); Verger, que descreve a procissão com tambores batá pelas ruas de Regla, dá 8 de setembro, o dia da Natividade de Nossa Senhora (Verger, Orixás, p. 72). Registramos as duas.
O que muda de um lado para o outro
Com as duas tabelas abertas, as diferenças saltam:
- 4 de dezembro, Santa Bárbara: Iansã na lista de Bastide, Changó na de Brown.
- 13 de junho, Santo Antônio: Ogum no Brasil, Eleguá em Cuba.
- 29 de junho, São Pedro: Oxalá (Orixá-la) na lista brasileira, Ogún na cubana.
- 2 de fevereiro: Oxum e Iemanjá no Brasil, Oyá em Cuba.
- Oxóssi: 23 de abril, dia de São Jorge, na lista de Bastide; San Norberto, 16 de junho, na de Brown. Verger confirma o santo cubano e acrescenta que na Bahia Oxóssi é São Jorge e no Rio de Janeiro, São Sebastião (Verger, Orixás, p. 51).
- Os gêmeos: 27 de setembro no Brasil, 26 em Cuba.
Nenhuma das duas listas está "errada". Cada uma registra como uma tradição leu o mesmo calendário católico, e nenhuma substitui a data da casa.
Como usar estas listas
Use-as como mapa, não como agenda. Se você quer acompanhar a festa de um Orixá, a data que vale é a do terreiro ou da casa de santo que você frequenta, e quem a dá é o sacerdote responsável. As listas servem para entender por que a festa cai onde cai e por que a mesma santa pode chamar Orixás diferentes nos dois lados do mar. Para cada Orixá, a ficha em /orixas reúne o que as fontes dizem dele. Páginas de Bastide, Brown e Cabrera: numeração impressa; de Verger, Orixás: a do arquivo digital que consultamos.
O que você leu aqui tem raiz nos 256 Odus de Ifá — o corpus que estudamos verso a verso. Leia-os como contemplação: divinação real pertence à mesa de um babalawo consagrado.
Fontes consultadas
- O Candomblé da Bahia — Roger Bastide, pp. 103–115
- Santería Enthroned — David H. Brown, pp. 66, 305
- El Monte — Lydia Cabrera, p. 255
- Orixás — Pierre Verger, pp. 51, 71–72, 80, 105–106 do arquivo digital
Quem escreve
- Pablo de Lima (Awofakan)
- Thaiana de Lima (Ikofá)
Um casal iniciado em Ifá na linhagem cubana — Regla de Ocha / Ifá.
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