Cultura24 de outubro de 2026 · 9 min de leitura

Babalawo e iyalorixá: dois sacerdócios, não um casal

Babalawo e iyalorixá: dois sacerdócios, não um casal

Uma frase aparece com frequência quando se fala de religião iorubá: "o babalawo é o sacerdote, e a iyalorixá é a sacerdotisa". Soa generosa, como se os dois títulos fossem o masculino e o feminino de um mesmo cargo. As fontes que usamos dizem outra coisa. São dois sacerdócios, com divindades diferentes, instrumentos diferentes, formação diferente e regras diferentes sobre quem pode exercê-los. Este texto põe os dois lado a lado, com página, na Bahia que Roger Bastide estudou, na terra iorubá que William Bascom descreveu e na Havana de David H. Brown.

O que dizem os nomes

O dicionário de José Beniste define bàbáláwo como sacerdote de Ifá, com a tradução literal de "aquele que conhece os mistérios ocultos" (Beniste, Dicionário Yorubá-Português, p. 148). Na mesma página está bàbálórìṣà, sacerdote do culto às divindades chamadas Orixás. E ìyálórìṣà aparece como sacerdotisa do culto aos Orixás, literalmente "mãe que tem conhecimento de orixá" (p. 413).

Os nomes já mostram a divisão. O par de iyalorixá é o babalorixá, não o babalawo: os dois primeiros servem aos Orixás; o terceiro serve a Ifá. Bascom registra o sentido corrente de babalawo como "o pai tem segredos", e diz que os adivinhos de Ifá também são chamados simplesmente de awo, segredo ou mistério (Bascom, Ifa Divination, p. 81).

O babalawo: o sacerdote de Ifá

Bascom escreve sobre os adivinhos de Ifá na terra iorubá a partir de trabalho de campo em Ifé, Igana e Meko. Ele registra que só homens podem se tornar babalawo; que os babalawo são também os sacerdotes de Ifá e atendem tanto os devotos de Ifá quanto quem cultua outras divindades; e que todos passam por duas iniciações caras, nas quais recebem dois conjuntos de dezesseis nozes de dendê. O aprendizado da adivinhação costuma começar antes da primeira cerimônia e continua depois dela, até que o mestre libere o aluno para trabalhar sozinho (Bascom, Ifa Divination, p. 81). Na mesma página, Bascom anota que as mulheres que cultuam Ifá podem ser encarregadas de cuidar das nozes do pai, mas nunca se tornam babalawo.

Na Bahia, Bastide encontra o mesmo traço. Como sacerdote de Ifá, diz ele, o babalaô (é a grafia que usa) é o único com direito de tocar no opelê e nos coquinhos de dendê (Bastide, O Candomblé da Bahia, p. 141). Para usar o colar de Ifá é preciso uma iniciação e uma aprendizagem especiais, e esse instrumento é privilégio dos babalaô e de mais ninguém (p. 145). Bastide também descreve o modo de trabalho: o babalaô atua em salas fechadas, sem tambor, sem canto e sem dança, cercado de poucas pessoas (p. 135). É um ofício discreto, o que ajuda a explicar por que ele aparece tão pouco nas descrições do candomblé.

A iyalorixá: a sacerdotisa dos Orixás

Bastide descreve o topo da hierarquia de um terreiro assim: acima de todos está o babalorixá, o pai de santo, se a casa é dirigida por um homem, ou a ialorixá, a mãe de santo, se é dirigida por uma mulher. É o chefe do culto: prepara os objetos sagrados, dirige as festas, identifica as divindades que se manifestam, controla os sacrifícios e as iniciações e consulta os obi, às vezes também os búzios, para saber a vontade dos Orixás (Bastide, p. 66).

Duas observações de Bastide valem para este post. A primeira: nos candomblés de rito iorubá que ele estudou na Bahia, são as ialorixás que presidem a vida do terreiro; os babalorixás, embora mais numerosos na cidade, predominavam nas casas de nação banto (p. 67). A segunda: as funções da ialorixá são as mesmas do babalorixá, com uma ressalva, a de que certos gestos rituais são reservados a homens, e por isso ela mantém a seu lado um auxiliar masculino (p. 67).

A formação também é outra. Babalorixá e ialorixá são escolhidos entre os ebômin, os filhos de santo com pelo menos sete anos de iniciação. Eles recebem os Orixás e entram em transe, o que os separa de outros cargos da casa. E o posto não passa de pai para filho: quem indica o sucessor são as divindades, por meio de Ifá, ou o sacerdote morto, que volta como Egun sete anos depois (p. 67). O prestígio deles cresce com o tempo de serviço e com o conhecimento dos mitos e dos ritos (p. 68).

Quatro sacerdócios na Bahia, não um só

O ponto mais forte de Bastide está no capítulo em que ele organiza o que chama de estrutura do mundo. Os ritos de entrada exigem consultar o colar de Ifá ou os búzios; a iniciação exige lavar a cabeça com folhas; depois da morte, o Egun precisa ser fixado num lugar próprio. Tudo isso, diz ele, escapa ao babalorixá e à ialorixá e cabe a sacerdotes especiais, que atendem a vários terreiros ao mesmo tempo (Bastide, p. 77).

Um informante resumiu o esquema para ele: antes da iniciação é preciso consultar Ifá para saber a que santo a pessoa pertence, e essa é a função do babalaô; quem "faz" a filha de santo é o babalorixá; quem colhe as folhas é o babalosaim; e quem pede licença aos antepassados é o babaogê (p. 137). Bastide conclui que, do ponto de vista funcional, há na Bahia quatro sacerdócios: babalorixá ou ialorixá, para o culto dos Orixás; babalaô, para o culto de Ifá; babalosaim, para o de Ossain; e babaogê, para o dos Eguns (p. 138).

Lida assim, a pergunta "quem é mais importante?" perde o sentido. Cada um preside a uma parte do mundo, e o terreiro depende de mais de um deles.

O babalaô quase sumiu da Bahia. O que isso não quer dizer

Bastide registra também uma disputa. Na África, diz ele, os babalaô ocupam o primeiro lugar entre os sacerdotes; na Bahia, perderam esse lugar diante da opinião pública, e houve uma verdadeira guerra entre babalorixás e babalaô pelo status mais alto, que a história resolveu a favor dos primeiros (Bastide, pp. 134–135). Os babalaô que ele entrevistou ainda se diziam superiores, porque atendiam a vários candomblés, enquanto o babalorixá cuidava de um só (p. 136).

Mas Bastide insiste numa leitura mais precisa: o que aconteceu não foi um sacerdote vencendo o outro, e sim uma forma de adivinhação tomando o lugar de outra. Na fórmula dele, "o búzio venceu o colar de Ifa" (p. 135). É por isso que, no Brasil de hoje, o jogo que se vê nos terreiros é o merindilogun, e não o opelê. Já explicamos a diferença entre os instrumentos em Opele, ikin e búzios: três ferramentas.

E a mulher em Ifá?

As fontes que temos tratam do assunto de três jeitos.

Na Bahia, Bastide descreve a apetebi: cada babalaô tem perto de si uma mulher filha de Oxum, que pode jogar os búzios. Ele insiste que ela é uma sacerdotisa, uma espécie de babalaô feminino, e não a esposa do babalaô (Bastide, p. 142). Numa nota, ele discorda de Edison Carneiro, que tinha citado mulheres babalaô na Bahia: para Bastide, o posto é exclusivamente masculino, e os nomes que Carneiro deu eram de apetebis (p. 142, nota 13). Ele também reconta um mito recolhido na Bahia, que explica por que as filhas de Oxum podem tirar a sorte com os búzios: Oxum, a apetebi de Ifá, insistiu até que ele preparasse dezesseis coquinhos e pedisse a Elegbá que respondesse por meio deles às perguntas dela, e Elegbá aceitou de má vontade (pp. 141–142).

Em Cuba, Brown registra que as mulheres que recebem a Mão de Orunmilá (kofá ou ikofafún) ficam autorizadas a atuar como apetebi, as assistentes de Orula e do tambor Añá (Brown, Santería Enthroned, p. 357, nota 8).

E Bascom, no livro sobre os dezesseis búzios, compara os dois sistemas iorubás: em Ifá, os adivinhos são babalawo e têm de ser homens; no jogo de búzios do sacerdote que ele estudou, os adivinhos podem ser homens ou mulheres (Bascom, Sixteen Cowries, p. 21). Segundo os mitos que ele registra, o jogo de búzios foi introduzido por Oxum, que o aprendeu com Orunmilá (p. 18); na versão contada pelo sacerdote que ele estudou, Oxum não deixou Orunmilá em paz até aprender, e foi com ela que os outros aprenderam a jogar (p. 20).

As obras que usamos não tratam de um título de mulher iniciada no próprio Ifá. Não temos fonte para esse tema e não vamos tratá-lo aqui.

Em Havana: duas reglas e um terceiro personagem

Brown descreve a reconstrução da religião lucumí em Cuba como a construção de duas "reglas": a Regla de Ocha, o panteão dos Orixás e dos seus sacerdotes, e a Regla de Ifá, de Orunmilá e dos babalawos, com laços mais ou menos fortes entre elas (Brown, p. 143). E acrescenta um personagem que a Bahia de Bastide não tinha com esse nome: o oriaté, mestre de cerimônias da Ocha e adivinho do dilogún, que, segundo Brown, não tem antecedente africano preciso (p. 150). Muitas tarefas da iniciação foram por muito tempo partilhadas e disputadas entre babalawos, padrinos e madrinas de Ocha e oriatés homens e mulheres; várias das primeiras oriatés de Havana foram mulheres (p. 151).

Brown mostra que, no século XX, as casas cubanas se distribuíram entre dois polos. Numa casa centrada em Ifá, o babalawo é o padrinho principal, e a pessoa recebe dele os Guerreiros e a Mão de Orula. Numa casa centrada na Ocha, quem conduz é o oriaté, junto com os padrinos e madrinas, e o babalawo pode nem aparecer (pp. 152–153). Os dois lados divergem até sobre quem identifica o Orixá dono da cabeça: as casas centradas em Ifá dão essa palavra a Ifá; as outras confiam no dilogún (pp. 153–154). Brown nota ainda que esse debate tem gênero: a retórica centrada em Ifá apresenta Orula e os babalawos como uma fraternidade masculina, e a Ocha como o lado plural, de homens e mulheres (p. 154).

Para ler sem confundir

  • Babalawo é sacerdote de Ifá. Nas fontes que usamos, o posto é masculino (Bascom, p. 81; Bastide, p. 142).
  • Iyalorixá e babalorixá são sacerdotisa e sacerdote dos Orixás, e dirigem uma casa (Bastide, pp. 66–67).
  • O instrumento de um é o opelê e os ikin; o dos outros, os obi e os búzios (Bastide, pp. 66, 141 e 145).
  • Na Bahia de Bastide eram quatro sacerdócios, e não dois (p. 138). Em Cuba, Brown descreve duas reglas e o oriaté entre elas (pp. 143 e 150).

A relação entre Ifá e o candomblé, vista de outro ângulo, está em Ifá e Candomblé: diferenças e pontos de contato. Dizer que babalawo e iyalorixá são ofícios distintos não diminui nenhum dos dois: só descreve o que as fontes descrevem.


O que você leu aqui tem raiz nos 256 Odus de Ifá — o corpus que estudamos verso a verso. Leia-os como contemplação: divinação real pertence à mesa de um babalawo consagrado.

Explorar os Odus de Ifá →

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Fontes consultadas

  • O Candomblé da Bahia — Roger Bastide, pp. 66–68, 77, 134–138, 141–142, 145
  • Ifa Divination — William Bascom, p. 81
  • Sixteen Cowries — William Bascom, pp. 18, 20–21
  • Santería Enthroned — David H. Brown, pp. 143, 150–154; p. 357, nota 8
  • Dicionário Yorubá-Português — José Beniste, pp. 148, 413
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Quem escreve

  • Pablo de Lima (Awofakan)
  • Thaiana de Lima (Ikofá)

Um casal iniciado em Ifá na linhagem cubana — Regla de Ocha / Ifá.

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