Opele, Ikin e búzios: as três ferramentas e o que cada uma é
Quem começa a estudar Ifá logo esbarra em três palavras que muita gente usa como se fossem uma só: opele, ikin e búzios. Não são. Duas delas são instrumentos de Ifá, o sistema de que cuida o babalawo. A terceira é o oráculo dos Orixás, o merindilogun, que no Brasil e em Cuba ganhou vida própria nas casas de santo. Este texto descreve o que é cada uma, com as fontes na mão. Não ensina a jogar e não promete leitura: o que se faz com esses objetos pertence a quem foi consagrado para isso.
Ifá em uma frase
O antropólogo William Bascom define Ifá como um sistema de divinação baseado em dezesseis figuras básicas e 256 derivadas, os Odus, que se obtêm manipulando dezesseis nozes de palmeira ou lançando uma corrente (Bascom, Ifa Divination, p. 3). Na mesma página, ele registra que o sistema também é praticado, com o nome de Ifá, por descendentes de iorubás escravizados em Cuba e no Brasil (p. 3). Wándé Abímbọ́lá lembra que babalawo quer dizer, aproximadamente, "pai dos segredos" (Abímbọ́lá, Sixteen Great Poems of Ifá, p. 5). Os instrumentos desse pai dos segredos são dois: os ikin e o opele.
Os ikin: as dezesseis nozes
Para Bascom, as dezesseis nozes de palmeira são os objetos mais importantes de toda a divinação de Ifá, tanto na consulta quanto no ritual (Bascom, Ifa Divination, p. 26). Vêm do dendezeiro (Elaeis guineensis), e a árvore que as dá é chamada "a palmeira de Ifá" (p. 26). Nem toda noz serve: só as que têm quatro ou mais "olhos", as pequenas depressões na casca; as de três olhos não são aceitas (p. 27). Abímbọ́lá descreve o mesmo e acrescenta que, entre os instrumentos do sistema, os ikin se tornaram o mais importante (Abímbọ́lá, p. 12).
Como os ikin "falam"? Em linhas gerais, o babalawo segura as nozes numa das mãos e tenta pegá-las com a outra; conforme o que sobra, ele risca um traço simples ou duplo. Quatro dessas marcas formam um dos dezesseis sinais básicos; oito, em duas colunas, formam um dos 256 Odus (Bascom, Ifa Divination, p. 3; Abímbọ́lá, pp. 13–14). Descrevemos o princípio, não o procedimento: os gestos, as rezas e o que vem antes e depois são ofício de quem foi iniciado.
Os ikin não são só um instrumento de consulta. No primeiro dos dezesseis grandes poemas reunidos por Abímbọ́lá, é nas dezesseis nozes que Orunmilá fica presente depois de deixar a Terra (Abímbọ́lá, p. 51). É a história que lemos no Estudo Orunmilá, o dono de Ifá, e quem é o Orixá você encontra na página de Orunmilá.
O opón e o iyerosun
Quando se consulta com os ikin, as marcas são feitas em pó, sobre um tabuleiro de madeira (Bascom, Ifa Divination, p. 33). Esse tabuleiro, o opón Ifá, é plano, quase sempre redondo, às vezes retangular ou em meia-lua, e tem a borda em relevo, entalhada (p. 34). Abímbọ́lá distingue dois tipos de recipiente de madeira, as bandejas planas e as tigelas fundas, e diz que as bandejas trazem na borda a imagem de Exu (Abímbọ́lá, p. 18).
O pó espalhado sobre a bandeja é o iyerosun, de cor amarelada. Os informantes de Bascom em Ifé o explicavam como o pó de madeira que os cupins fazem na árvore irosun (Bascom, Ifa Divination, pp. 34–35), e Abímbọ́lá diz o mesmo, registrando que às vezes se usa o pó de outras árvores (Abímbọ́lá, p. 16). José Beniste, que escreve a partir do Brasil, descreve o opón Ifá do mesmo modo, de madeira e com Exu entalhado na borda (Beniste, Jogo de Búzios, p. 66). Quem é esse Orixá que guarda a borda da bandeja, você lê na página de Exu.
O opele: a corrente
O opele é uma corrente com oito metades de semente: segurada pelo meio, ela cai com quatro metades de cada lado (Bascom, Ifa Divination, p. 3). Cada metade cai com a face côncava para cima ou para baixo, o que vale um traço simples ou duplo; assim, um único lançamento produz de uma vez uma das 256 figuras (p. 3). O nome vem da árvore ọ̀pẹ̀lẹ̀, cuja vagem fornece as metades, mas em Ifé e Ilesa a semente mais estimada era outra, a egbere (p. 30). Abímbọ́lá acrescenta que o fio pode ser de metal ou de algodão e que as metades às vezes são substituídas por peças de metal (Abímbọ́lá, p. 15).
Entre os dois instrumentos há uma hierarquia, e Bascom a registra com cuidado. A corrente "fala mais" e é a mais usada no dia a dia, mas é tida como instrumento inferior, menos confiável que os ikin para as questões importantes; ela é chamada de "servo de Ifá" (Bascom, Ifa Divination, p. 29). Alguns adivinhos usam só a corrente, porque ela chega aos mesmos Odus e aos mesmos versos mais rápido (p. 29).
Os búzios: o merindilogun
O terceiro objeto pertence a outro ofício. Em Sixteen Cowries, livro inteiro sobre o tema, Bascom descreve a divinação com dezesseis búzios como um sistema dos iorubás e dos seus descendentes no Novo Mundo, mais simples que Ifá e, na Nigéria, menos prestigiado, mas que nas Américas se tornou mais importante que Ifá (Bascom, Sixteen Cowries, p. 3). Ele explica a diferença por dois motivos: o sistema está ligado a Orixás muito populares, como Xangô, Iemanjá e Oxum, e pode ser praticado por homens e mulheres, enquanto o adivinho de Ifá, o babalawo, é sempre um homem (p. 3; ver também p. 21).
O jogo também é outro. Os búzios são lançados, e se conta quantos caem com a abertura para cima, o que dá dezessete resultados possíveis, de nenhum a dezesseis (p. 5; Bascom, Ifa Divination, p. 11), contra os 256 de Ifá. Os nomes de muitas dessas figuras são aparentados aos nomes dos Odus de Ifá (Bascom, Sixteen Cowries, p. 5); nos dois sistemas as figuras se chamam odu e os versos se chamam ese, e os versos decorados são o núcleo de ambos (pp. 21–22). Quem joga, na Nigéria que Bascom estudou, é o awo olorisa, homem ou mulher, e não o babalawo (p. 21). Ifá, por sua vez, é aberto a devotos de qualquer divindade, enquanto os búzios se usam sobretudo dentro do culto de Orixás específicos (Bascom, Ifa Divination, p. 11).
No Novo Mundo, os nomes mudam. Em Cuba, Bascom registra o sistema como dilogún ou los caracoles, provavelmente o mais importante dos cultos afro-cubanos; no Brasil, a partir dos autores que leu, como dologum, edilogum, merindilogum ou simplesmente "Exu" (Bascom, Sixteen Cowries, p. 4). No candomblé da Bahia descrito por Roger Bastide, é a mãe ou o pai de santo quem consulta o obí e, às vezes, os búzios (Bastide, O Candomblé da Bahia, p. 66). Para o contexto, leia também a história do candomblé.
Parentesco não é identidade. No prefácio de Sixteen Cowries, sem número de página, Bascom fala de uma relação mitológica, talvez histórica e certamente morfológica entre os dois sistemas. Pierre Verger vai além e fala de sistemas de adivinhação "derivados" de Ifá, entre eles um de dezesseis búzios em que é Exu quem dá as respostas (Verger, Orixás, p. 57 do PDF). As duas leituras ficam aqui lado a lado; não escolhemos uma.
As mulheres e Ifá
Dizer que Ifá é "só de homens" não descreve bem o que as fontes registram. O que elas reservam aos homens é o sacerdócio de babalawo. Bascom escreve que os devotos de Ifá incluem homens e mulheres e que uma mulher pode cuidar dos ikin do pai, mas que só homens se tornam babalawo (Bascom, Ifa Divination, p. 81); registra também que nenhuma mulher entra na alcova onde se guarda o odu (p. 82). Abímbọ́lá vai além: o culto de Ifá, escreve, não é fechado, e mulheres podem ser iniciadas como sacerdotisas de Ifá, embora sejam poucas (Abímbọ́lá, pp. 7–8).
A mulher tem também um lugar próprio junto ao babalawo. Bascom descreve a menina que a divinação aponta como "esposa de Ifá", destinada a se casar com um babalawo (Bascom, Ifa Divination, p. 89). Na linhagem cubana, segundo David H. Brown, homens e mulheres recebem a mano de Orula, que se chama awofakan para os homens e ikofá para as mulheres; a mulher que recebe o ikofá pode atuar como apetebí, assistente de Orula (Brown, Santería Enthroned, p. 346, nota 130). Sobre o título de Iyanifá e o debate entre linhagens a respeito dele, não encontramos nada nas obras que consultamos, e por isso não afirmamos nada aqui.
E o obí?
Um quarto objeto costuma aparecer nessa conversa: a noz de cola, o obí, partida em quatro. Bascom descreve o lançamento de quatro gomos de cola, ou de quatro búzios, como um método que dá só cinco figuras e que se usa dentro dos cultos (Bascom, Ifa Divination, pp. 10–11). O que o separa de Ifá e dos dezesseis búzios, diz ele, é não ter um corpo de versos (p. 11; Sixteen Cowries, p. 22).
Lado a lado
| Ikin | Opele | Búzios (merindilogun) | |
|---|---|---|---|
| O que é | 16 nozes de dendê | corrente com 8 metades de semente | 16 búzios |
| Resultados | 256 Odus | 256 Odus | 17 figuras |
| Quem usa, segundo as fontes | babalawo | babalawo | awo olorisa; no Brasil, mãe e pai de santo |
| Lugar no sistema | o instrumento maior de Ifá | o "servo de Ifá", mais rápido | o oráculo dos cultos de Orixá |
| Onde ler | Bascom, Ifa Divination, pp. 3, 26–27 | Bascom, Ifa Divination, pp. 3, 29–30 | Bascom, Sixteen Cowries, pp. 3–5, 21 |
E o Ifá Wisdom?
O site não lança nenhum desses instrumentos. A ferramenta de estudo se inspira na lógica do opele para apresentar um Odu como tema de leitura, e o Odu do Dia é uma rotação fixa, não um lançamento. Os 256 Odus estão na biblioteca, a começar por Ogbe, e o princípio por trás da consulta está em Como funciona a divinação de Ifá. A consulta real pertence à mesa de um babalawo.
O que não afirmamos
- Não ensinamos a jogar nem a consagrar nenhum desses instrumentos; descrevemos o que as fontes descrevem.
- Não dizemos que os búzios "vêm" de Ifá. Bascom fala de parentesco, Verger de derivação, e as duas leituras ficam como estão.
- Não dizemos qual dos sistemas é mais antigo: as fontes que usamos não datam nenhum dos dois.
- Sobre as mulheres em Ifá, registramos o que Bascom, Abímbọ́lá e Brown escreveram, cada um no seu tempo e lugar; não examinamos a prática de cada casa hoje, nem o debate sobre a Iyanifá, que essas obras não tratam.
- Não dizemos que as mulheres sejam vistas como "maiores" em Ifá: não encontramos essa afirmação nas obras que consultamos.
- Não encontramos no Tratado Enciclopédico de Ifá, a nossa fonte cubana, uma descrição dos instrumentos que pudéssemos citar com página; por isso ele não entra neste texto.
Perguntas frequentes
Opele e ikin dão resultados diferentes?
No número, não: os dois chegam aos mesmos 256 Odus, e Bascom registra que a corrente leva aos mesmos versos mais rápido (Bascom, Ifa Divination, p. 29). A diferença está no peso: os ikin são o instrumento mais importante; o opele, o "servo de Ifá".
Jogo de búzios é Ifá?
Não. São sistemas aparentados, com figuras de nomes semelhantes, mas com instrumento, número de figuras e sacerdócio diferentes: 17 figuras contra 256, o awo olorisa (no Brasil, a mãe ou o pai de santo) de um lado e o babalawo do outro (Bascom, Sixteen Cowries, pp. 5, 21).
Preciso de um opele para estudar os Odus?
Não. As fontes descrevem o opele e os ikin como instrumentos do babalawo, consagrados para a divinação. Para estudar, bastam os textos: os versos, os patakís e os comentários que reunimos na biblioteca.
O que você leu aqui tem raiz nos 256 Odus de Ifá — o corpus que estudamos verso a verso. Leia-os como contemplação: divinação real pertence à mesa de um babalawo consagrado.
Fontes consultadas
- Ifa Divination — William Bascom, pp. 3, 10–11, 26–35, 81–82, 89
- Sixteen Cowries — William Bascom, pp. 3–5, 21–22
- Sixteen Great Poems of Ifá — Wándé Abímbọ́lá, pp. 5, 7–8, 12–18, 51
- Jogo de Búzios — José Beniste, p. 66
- O Candomblé da Bahia — Roger Bastide, p. 66
- Orixás — Pierre Fatumbi Verger, p. 57 do PDF
- Santería Enthroned — David H. Brown, p. 346, nota 130
Quem escreve
- Pablo de Lima (Awofakan)
- Thaiana de Lima (Ikofá)
Um casal iniciado em Ifá na linhagem cubana — Regla de Ocha / Ifá.
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