Guia31 de outubro de 2026 · 9 min de leitura

Consulta a Ifá: 20 perguntas frequentes, respondidas com fonte

Consulta a Ifá: 20 perguntas frequentes, respondidas com fonte

Quem chega a Ifá pela primeira vez costuma trazer as mesmas perguntas: quem joga, com o quê, quanto custa, se é preciso contar o problema, se a resposta é o futuro. Reunimos aqui vinte delas. As respostas vêm, quase todas, do livro em que William Bascom descreve a adivinhação de Ifá a partir de pesquisa de campo na terra iorubá, sobretudo em Ifé (Bascom, Ifa Divination, p. 3), e são cruzadas com Wándé Abímbọ́lá, Pierre Verger e Roger Bastide. Onde a fonte não responde, dizemos isso.

Uma advertência antes de começar: este site não faz consultas. Descrevemos o que as fontes registram sobre a mesa do babalawo; quem quer ser consultado procura um babalawo.

O que é e quem faz

1. O que é Ifá, numa frase?

Bascom abre o livro com uma definição seca: Ifá é um sistema de adivinhação baseado em dezesseis figuras básicas e 256 derivadas, os Odus, obtidas com dezesseis nozes de dendê ou com o lance de uma corrente de oito metades de semente (Bascom, Ifa Divination, p. 3). Na mesma página, ele lembra que Ifá também é cultuado como divindade, com cerimônias, tabus, cantos e iniciação, e avisa que esse lado do culto não é o assunto do livro.

2. Quem conduz a consulta?

O babalawo. Bascom registra que os adivinhos de Ifá são chamados de babalawo, "o pai tem segredos", ou simplesmente de awo; que são também os sacerdotes de Ifá; e que atendem tanto quem cultua Ifá quanto quem cultua outras divindades (p. 81). Todos passam por duas iniciações, e o aprendizado continua até o mestre liberar o aluno (p. 81). Verger acrescenta um traço que distingue esse sacerdócio do dos Orixás: a iniciação do babalawo não envolve a perda momentânea de consciência, é um longo aprendizado de memória (Verger, Orixás, p. 56).

3. E quem é Orunmilá?

É a divindade que preside Ifá; Bascom registra que Orunmilá também é chamado de Ifá (Bascom, Sixteen Cowries, p. 21). Verger escreve que, na tradição de Ifé, ele foi o primeiro companheiro e conselheiro de Odudua e que é chamado de testemunha do destino das pessoas (Verger, Orixás, p. 56). Contamos mais no Estudo Orunmilá, o dono de Ifá.

4. Ifá é o mesmo que jogo de búzios?

Não. Bascom compara os dois sistemas ponto por ponto: em Ifá, os adivinhos são babalawo e precisam ser homens, usam dezesseis nozes ou a corrente e trabalham com 256 figuras; no jogo de dezesseis búzios, os adivinhos podem ser homens ou mulheres, lançam os búzios no chão e trabalham com 17 figuras (Bascom, Sixteen Cowries, p. 21). Há semelhanças: nos dois, as figuras se chamam Odu, os dois tipos de adivinho também conhecem as folhas, e os versos decorados são o centro do sistema (pp. 21–22). Na Bahia, Bastide registra que só o babalaô (a grafia dele) tinha direito de tocar no opelê e nos coquinhos de dendê, o que não valia para os búzios (Bastide, O Candomblé da Bahia, p. 141). Detalhamos em Opele, Ikin e búzios.

Os instrumentos

5. Com o que o babalawo trabalha?

Com dois instrumentos de leitura: os ikin, dezesseis nozes de dendê, e o opele, a corrente com oito metades de semente (Bascom, p. 3). As figuras tiradas com os ikin são marcadas num tabuleiro de madeira; na borda há pelo menos um rosto estilizado, identificado como Exu, o mensageiro de Ifá (p. 34). Sobre o tabuleiro se espalha um pó, o iyerosun, que em Ifé é a serragem que os cupins deixam numa madeira chamada irosun (p. 35).

6. Ikin ou opele: qual vale mais?

Os dois chegam às mesmas figuras e aos mesmos versos. Bascom registra que a corrente "fala mais" e é a mais usada, porque é mais rápida e responde a mais perguntas; mesmo assim, é tida como instrumento inferior, menos confiável para as questões importantes, e chamada de serva de Ifá (p. 29).

7. Como se chega a um Odu?

Com os ikin, o babalawo segura as dezesseis nozes e tenta apanhá-las com a mão direita: se sobram duas na esquerda, marca um traço; se sobra uma, marca dois. Quatro marcações dão uma das dezesseis figuras básicas; oito dão uma das 256 (Bascom, p. 3). Com o opele, um único lance basta: cada metade de semente cai com a face côncava ou a convexa para cima, e as oito juntas formam a figura inteira (p. 3).

8. Quantos Odus existem?

Duzentos e cinquenta e seis. Abímbọ́lá registra a divisão: dezesseis maiores e 240 menores, os maiores tidos como bem mais velhos, numa ordem de senioridade que começa em Eji Ogbe; ele anota que a lista é aceita pela maioria dos sacerdotes, com variações locais (Abímbọ́lá, Sixteen Great Poems of Ifá, p. 29). Neste site, os 240 se chamam Omoluos. Os dezesseis estão no mapa dos 16 Odu Meji.

Como a consulta funciona

9. O Odu que sai é sorte?

Pela estatística, cada figura tem uma chance em 256 com uma boa corrente. Para os adivinhos, não há acaso: quem controla a queda das sementes é Ifá, e qualquer interferência, do instrumento ou da mão, embaralha a mensagem que ele quer passar (Bascom, p. 30).

10. Preciso contar o meu problema ao babalawo?

Em Ifé, o costume registrado por Bascom é o contrário. O consulente sussurra a pergunta para a moeda que vai entregar, cobrindo a boca, e o babalawo encosta a corrente na moeda e pergunta a Ifá se ele ouviu (p. 68). Os informantes de Ifé disseram que era errado o adivinho saber o problema, porque ele seria tentado a mentir para agradar (p. 68). O Araba de Igana acrescentou que, depois de escolhido o verso, o adivinho pode usar o que sabe da vida do cliente para aconselhá-lo, mas o cliente não deve dizer por que veio (p. 69).

11. Como a resposta aparece?

Bascom descreve três passos: a figura, o verso e o sacrifício (p. 68). O babalawo recita os versos que decorou para o Odu que saiu, e o consulente escuta até ouvir um que fale do seu caso. Segundo Bascom, quem escolhe o verso é o próprio consulente (p. 69). Ele mesmo registra a divergência: três autores iorubás, J. Johnson, S. Johnson e Lucas, dizem que é o adivinho quem escolhe (p. 69).

12. Quantos versos um babalawo sabe?

Muitos, e nunca o bastante. Abímbọ́lá escreve que cada Odu tem centenas de poemas associados a ele (p. 30). Em Ifé, Bascom ouviu que é preciso saber ao menos quatro versos por figura, mais de mil no total, antes de trabalhar sozinho; em Igana bastavam dois; em Meko, um. O Araba de Igana disse saber uns quatro para cada figura e oitenta para Eji Ogbe. E o estudo não termina: o adivinho aprende até morrer (Bascom, p. 71).

13. Ifá diz o futuro?

Bascom adverte quem espera de Ifá o nome do vencedor de uma eleição ou de uma corrida: dá para perguntar, diz ele, mas não é esse o tipo de pergunta a que Ifá responde. As perguntas de Ifá são do tipo "qual destes candidatos é melhor para todos" ou "que sacrifício é preciso para o melhor resultado" (p. 69). E ele anota que, como em outros sistemas e até na medicina, o consulente raramente consegue decidir se a previsão estava certa (pp. 69–70).

Ẹbọ, preço e confiança

14. O que é o ẹbọ?

É o sacrifício que o verso indica. Bascom registra que os versos prescrevem o sacrifício e que ele pode ser modificado (p. 68). Um adivinho lhe explicou a lógica: se o que foi anunciado é ruim, o ebó se faz para que venha mais leve; se é bom, para que venha maior e mais depressa (p. 70). Explicamos a ideia, sem receita, em Ebó: o que são oferendas.

15. Dá para pechinchar?

Não com o consulente propondo. Bascom registra o ditado de que não se pechincha com Ifá como no mercado: quem propõe mudança no sacrifício é o adivinho, e a mudança passa pela aprovação de Ifá (p. 76). Os adivinhos admitem levar em conta a riqueza do cliente, mas esperam-se deles propostas razoáveis; os clientes contam que, para quem é pobre, se pode pedir um fio de cabelo no lugar de um cavalo, ou uma pena no lugar de uma galinha (p. 76).

16. Existem babalawos desonestos?

Clientes e adivinhos acreditam que sim, e é por isso que se esconde a pergunta (p. 76). Falsear a mensagem de Ifá é tido como estritamente antiético (p. 77). Bascom, porém, diz que, pela sua experiência, a maioria dos babalawos é honesta e trabalha de boa-fé, num sistema em que eles mesmos acreditam e pelo qual conduzem a própria vida (p. 79).

17. Mulher pode ser babalawo?

Nas obras que usamos, não. Bascom registra que só homens se tornam babalawo, e que mulheres que cultuam Ifá podem ser encarregadas de cuidar das nozes do pai (p. 81). No jogo de búzios, ao contrário, os adivinhos podem ser homens ou mulheres (Bascom, Sixteen Cowries, p. 21). Sobre o título de mulheres iniciadas no próprio Ifá, não temos fonte, e não vamos preencher a lacuna com suposição.

Ifá e o leitor

18. Ifá existe fora da Nigéria?

Sim. Bascom registra a adivinhação de Ifá entre os iorubás e os edos de Benin, na Nigéria, entre os fons do Daomé, que a chamam de Fa, entre os ewes do Togo e, com o nome de Ifá, entre descendentes de escravizados iorubás em Cuba e no Brasil (p. 3). Na Bahia que Bastide estudou, o babalaô ainda trabalhava com o opelê (Bastide, p. 141).

19. Como sei qual é o meu Odu?

Verger registra que, quando nasce uma criança, os pais pedem ao babalawo que indique a qual dos 256 Odus ela está ligada (Verger, Orixás, p. 56); e Bascom, a partir do relato de um sacerdote que entrevistou, conclui que quem não é muçulmano nem cristão leva os filhos a um adivinho de Ifá para saber o destino deles ao nascer (Bascom, Sixteen Cowries, p. 21). É ofício do babalawo, e só dele. Este site não diz nem vai dizer a ninguém qual é o seu Odu. Explicamos por quê em Odu de nascimento.

20. E a ferramenta deste site, é uma consulta?

Não. Ela usa inteligência artificial para estudar e contemplar o corpus dos 256 Odus; uma IA não possui axé e não substitui o jogo sagrado de Ifá. O Odu do Dia é o mesmo para todo mundo e não foi jogado para você. Quem precisa de orientação, de ẹbọ ou de uma consulta de verdade procura um babalawo consagrado.


O que você leu aqui tem raiz nos 256 Odus de Ifá — o corpus que estudamos verso a verso. Leia-os como contemplação: divinação real pertence à mesa de um babalawo consagrado.

Explorar os Odus de Ifá →

Consulta a IfáPerguntas frequentesBabalawoOpeleIkinOduBascomAbímbọ́láVerger

Fontes consultadas

  • Ifa Divination — William Bascom, pp. 3, 29–30, 34–35, 68–71, 76–77, 79, 81
  • Sixteen Cowries — William Bascom, pp. 21–22
  • Sixteen Great Poems of Ifá — Wándé Abímbọ́lá, pp. 29–30
  • Orixás — Pierre Verger, p. 56 do arquivo digital
  • O Candomblé da Bahia — Roger Bastide, p. 141
Ver todas as fontes →

Quem escreve

  • Pablo de Lima (Awofakan)
  • Thaiana de Lima (Ikofá)

Um casal iniciado em Ifá na linhagem cubana — Regla de Ocha / Ifá.

Conheça os autores →

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