Guia3 de outubro de 2026 · 8 min de leitura

Os 16 Odu Meji: o mapa de Ifá

Todo o corpus de Ifá cabe numa grade de dezesseis por dezesseis. Nas duas bordas dessa grade estão dezesseis signos, e quando um deles aparece repetido dos dois lados, ele recebe um nome de honra: Meji, "duplo". São os dezesseis Odu Meji, os mais velhos e os mais importantes dos 256. Este texto é um mapa: diz o que eles são, em que ordem vêm, por que a ordem não é a mesma em toda parte e onde você pode ler cada um aqui no site. Não interpreta o signo de ninguém, porque isso não se faz por texto.

Dezesseis vezes dezesseis

Wándé Abímbọ́lá descreve como o signo se forma: o babalawo registra as marcas quatro vezes, em duas colunas, da direita para a esquerda (Abímbọ́lá, Sixteen Great Poems of Ifá, p. 13). Cada coluna pode assumir dezesseis formas. Quando as duas colunas são iguais, o Odu leva o nome do signo seguido de Méji, e esses são os dezesseis Odu principais; dezesseis formas de um lado vezes dezesseis do outro dão os 256 Odus, e quando os lados diferem o resultado é um dos 240 Odus menores (p. 14). William Bascom faz a mesma conta e insiste que são 256, "nem mais nem menos" (Bascom, Ifa Divination, p. 42). Ele acrescenta um detalhe da leitura: a metade direita do signo é tida como masculina e mais forte que a esquerda (pp. 40–41).

Os nomes variam com a língua e a casa. Abímbọ́lá chama os dezesseis maiores de Ojú Odù e os 240 menores de Ọmọ Odù ou Àmúlù Odù (Abímbọ́lá, p. 29); Bascom registra os duplos como olodu e as combinações como amulu, e diz que os dezesseis pares têm precedência sobre as 240 combinações (Bascom, p. 42). Aqui no site, os 240 derivados se chamam Omoluos. E o Tratado Enciclopédico de Ifá, a nossa fonte cubana, abre a sua entrada de Odi Meyi dizendo que ele é um dos olodus mais fortes (Tratado, p. 2 do PDF), com a grafia Meyi para o mesmo Meji.

A ordem dos dezesseis

Os Meji não são iguais entre si. Abímbọ́lá diz que os Ojú Odù estão muito acima dos demais e que há entre eles uma ordem estrita de senioridade, e dá a lista (Abímbọ́lá, p. 29). Bascom explica o que essa ordem quer dizer: é a ordem em que os Odus nasceram (Bascom, pp. 47–48). Na ordem de Abímbọ́lá, que é também a do sudoeste iorubá na tabela de Bascom (Bascom, p. 48), e a que as fichas deste site seguem:

#OduFichaOnde ler mais
1Ogbe (Eji Ogbe)OgbeOgbe Meji · Estudo do Ejiogbe
2OyekuOyekuOyeku Meji · Estudo do Oyekun Meyi
3IworiIworiEstudo do Iwori Meyi
4OdiOdiEstudo do Odi Meyi
5IrosunIrosun
6OwonrinOwonrin
7ObaraObara
8OkanranOkanran
9OgundaOgunda
10OsaOsa
11IkaIka
12OturuponOturupon
13OturaOtura
14IreteIrete
15OseOse
16OfunOfun

Abímbọ́lá registra que o décimo sexto também é chamado Orangun Méji (Abímbọ́lá, p. 30). Cada ficha traz a tabela de nomenclatura com o nome iorubá e o nome lucumí, cada um com a sua fonte; a lista completa dos 256 está na biblioteca.

Por que a ordem muda

Quem compara livros e casas logo percebe que a lista nem sempre é a mesma. Bascom tratou disso com método: reuniu 86 listas, de 61 fontes, e constatou que os nomes dos dezesseis são os mesmos em toda a área iorubá, entre os Fon e os Ewe, em Cuba e no Brasil (Bascom, Ifa Divination, p. 47). A ordem, não. A sequência dominante aparece em 42 das 86 listas, e há outras 21 ordens; as variantes se concentram no nordeste iorubá (Ifẹ, Ilesa, Ekiti, Igbomina), e a ordem dominante, no sudoeste (p. 47). Abímbọ́lá também registra variações locais notáveis (Abímbọ́lá, p. 29).

E em Cuba? Bascom registra que cinco das seis listas cubanas que examinou, e a única brasileira, seguem a ordem dominante (Bascom, p. 47). O Tratado Enciclopédico de Ifá não traz uma lista numerada, mas organiza os signos na mesma sequência: no capítulo de Odi Meyi, os signos derivados aparecem na ordem Odi Lobe (com Ogbe), Odi Yeku, Odi Wori, Odi Iroso, Odi Juani, Odi Bara, Odi Kana, Odi Ogunda, Odi Sa, Odi Ika e Odi Trupon (Tratado, pp. 32–127 do PDF). É a ordem de Abímbọ́lá, com os nomes lucumí: Iroso no lugar de Irosun, Ojuani no de Owonrin, Okana no de Okanran e Otrupon no de Oturupon.

O próprio Bascom segue, na sua primeira tabela, a ordem de Ifẹ, em que Obara e Okanran vêm logo depois de Odi, antes de Irosun e Owonrin, e em que Irete e Otura vêm antes de Oturupon (Bascom, p. 4). E faz uma observação que desarruma qualquer leitura apressada da lista: Ofun Meji, embora listado em décimo sexto, é igual em hierarquia a Owonrin, o oitavo naquela ordem (pp. 47–48). Posição na lista e peso no sistema não são a mesma coisa.

A divergência não se resolve escolhendo um lado. A ficha de cada Odu mostra os nomes das duas tradições, e este mapa mostra a ordem que o site usa e de onde ela vem.

O que cada Meji guarda

Cada Odu é um capítulo, e não uma palavra. Abímbọ́lá diz que o corpus tem 256 capítulos e que cada Odu guarda centenas de poemas (Abímbọ́lá, pp. 29–30); os longos, de tom épico, se chamam Ifá Nlanla, e todo ese segue uma estrutura de oito partes, quatro obrigatórias e quatro opcionais (p. 30). Bascom, por sua vez, situa o núcleo do sistema nos milhares de versos que o babalawo decora (Bascom, p. 11).

Por isso é preciso cuidado com resumos de uma linha. Os dezesseis grandes poemas que Abímbọ́lá publicou não são um poema por Meji: o apêndice do livro diz de que Odu saiu cada um, e só alguns vêm de Meji (Abímbọ́lá, p. 449). São estes:

  • Iwori Meji: o primeiro poema, sobre o nascimento do sistema de Ifá (p. 51), que lemos no Estudo Orunmilá, o dono de Ifá.
  • Oyeku Meji: o terceiro, um longo Ifá Nlanla sobre o casamento e a rivalidade entre esposas (p. 105).
  • Ogunda Meji: o quinto, sobre o Orí como orixá pessoal de cada um (p. 158), que comentamos em Orí, a cabeça espiritual.
  • Obara Meji: o sétimo e o oitavo (pp. 208, 235).
  • Osa Meji: o nono, o décimo e o décimo primeiro, três poemas de conflito, dois deles com as ajé entre os protagonistas (pp. 261, 292, 309).
  • Ofun Meji: o décimo segundo (p. 323).

Os outros poemas vêm de Odus combinados, como Ogbegunda, de onde sai a história de Ajalá e da escolha do Orí (pp. 178, 449). Ou seja: os Meji são a espinha do corpus, mas o corpus não se esgota neles.

Como usar este mapa

Comece pela ficha. Cada página de Odu reúne o que o site verificou sobre aquele signo, com a fonte de cada afirmação. Depois siga para os Estudos, que leem um Odu por vez, na ordem de senioridade, a partir de um ou dois patakís. E, se quiser ver os 256 juntos, a biblioteca é o índice completo. Os Orixás que aparecem nesses textos têm as suas próprias páginas em Orixás.

O que não afirmamos

  • Não dizemos qual é o seu Odu: nenhum texto, nem este site, diz isso. O signo de uma pessoa é assunto da mesa do babalawo.
  • Não apresentamos a ordem do site como a única correta: Bascom documenta várias, e as fichas mostram as diferenças.
  • Não encontramos, nas obras que usamos, uma lista lucumí numerada dos dezesseis com página; a ordem cubana que mostramos é a que o Tratado segue ao organizar os signos.
  • Não atribuímos a cada Meji uma "palavra-chave" que resuma o signo. As fichas e os Estudos leem patakís com página; um adjetivo não substitui um capítulo.
  • Não damos aqui a contagem exata de versos por Odu: as fontes falam em centenas, e não fixamos número.
  • As páginas do Tratado para cada Meji estão nas fichas; neste texto citamos apenas as que conferimos para ele.

Perguntas frequentes

O que quer dizer Meji?

É o nome dado ao Odu em que o mesmo signo aparece dos dois lados; os dezesseis assim formados são os principais (Abímbọ́lá, p. 14). Em Cuba se escreve Meyi.

Quantos Odus existem?

São 256: os 16 Meji e 240 combinados (Abímbọ́lá, p. 14; Bascom, Ifa Divination, p. 42). Aqui no site, os combinados se chamam Omoluos.

Qual é o primeiro Odu?

Na ordem de senioridade que Abímbọ́lá registra, é Eji Ogbe (Abímbọ́lá, p. 29), também chamado Ejiogbe. A ordem dos demais varia entre regiões (Bascom, p. 47).

Os Meji são mais importantes que os outros Odus?

As fontes dizem que sim, em hierarquia: os dezesseis pares têm precedência sobre as 240 combinações (Bascom, p. 42; Abímbọ́lá, p. 29). Isso não torna os combinados menores em ensinamento: muitos dos grandes poemas vêm deles.


O que você leu aqui tem raiz nos 256 Odus de Ifá — o corpus que estudamos verso a verso. Leia-os como contemplação: divinação real pertence à mesa de um babalawo consagrado.

Explorar os Odus de Ifá →

Odu MejiOdusOgbeOyekuIworiOdiIfáAbímbọ́láBascomOmoluos

Fontes consultadas

  • Sixteen Great Poems of Ifá — Wándé Abímbọ́lá, pp. 13–14, 29–30, 51, 105, 158, 178, 208, 235, 261, 292, 309, 323, 449
  • Ifa Divination — William Bascom, pp. 3–4, 11, 40–42, 47–48
  • Tratado Enciclopédico de Ifá, pp. 2, 32–127 do PDF
Ver todas as fontes →

Quem escreve

  • Pablo de Lima (Awofakan)
  • Thaiana de Lima (Ikofá)

Um casal iniciado em Ifá na linhagem cubana — Regla de Ocha / Ifá.

Conheça os autores →

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