Ifá é candomblé? Diferenças e pontos de contato
A resposta curta é não: Ifá não é candomblé, e candomblé não é Ifá. Mas a resposta curta engana, porque as duas tradições nasceram do mesmo mundo iorubá, falam dos mesmos Orixás, saúdam Exu antes de tudo e usam a mesma palavra, odu, para os signos dos seus oráculos. Este texto mostra onde elas se tocam e onde se separam, com o que as fontes registram. Não coloca uma acima da outra: cada uma tem seus sacerdotes, seus saberes e sua história.
Duas respostas curtas
O que é Ifá. Para William Bascom, Ifá é um sistema de divinação baseado em dezesseis figuras básicas e 256 derivadas, os Odus, com um culto próprio, de rituais comparáveis aos dos outros cultos iorubás (Bascom, Ifa Divination, p. 3). Quem o pratica é o babalawo. Pierre Verger descreve os babalaôs como porta-vozes de Orunmilá, que ele apresenta como uma divindade que "não é Orixá nem ebora", e diz que a iniciação deles não envolve a perda momentânea da consciência: é, nas palavras dele, totalmente intelectual (Verger, Orixás, p. 56 do PDF). Essa classificação é a de Verger, que reserva o nome Orixá para a família de Orixalá e chama de ebora as demais divindades (p. 97 do PDF). Outras fontes classificam de outro modo: Bastide registra, na Bahia, Orunmilá entre os Orixás que não "baixam" (Bastide, O Candomblé da Bahia, p. 28), e David H. Brown, que escreve sobre Cuba, chama Orula de oricha patrono do babalawo (Brown, Santería Enthroned, p. 76).
O que é candomblé. Para Roger Bastide, que estudou os terreiros da Bahia, no candomblé os Orixás "se reencarnam" no corpo dos fiéis, e a possessão é o ponto central do culto público (Bastide, O Candomblé da Bahia, p. 19). Os candomblés se organizam em "nações", como Angola, Congo, Jeje, Nagô, Ketu e Ijexá, distintas pelo toque, pela língua e pelo ritual, e a influência iorubá predomina no conjunto (p. 17). Verger acrescenta que a responsabilidade do culto repousa sobre o pai ou a mãe de santo (Verger, p. 32 do PDF).
Já se vê a primeira diferença: Ifá é um sistema de saber e de divinação em torno de Orunmilá; o candomblé é um culto aos Orixás, com iniciação e transe, reunido num terreiro.
Na África, cultos locais; no Brasil, o terreiro
Uma das observações mais úteis de Verger é que, na terra iorubá, o culto de cada Orixá dependia da história de cada cidade: Xangô não tinha culto oficial em Ifé, Oxum estava presente em Ijexá e ausente entre os Egbá, e Iemanjá não era conhecida em Ijexá (Verger, p. 2 do PDF). Na África, um Orixá era invocado num templo próprio, por uma coletividade familiar; no Novo Mundo, vários Orixás passaram a ser chamados num mesmo terreiro (p. 35 do PDF). Para Verger, o terreiro brasileiro reúne em torno do Orixá da casa os Orixás pessoais dos seus membros e é símbolo do reagrupamento do que o tráfico dispersou (p. 20 do PDF).
Ifá ocupava outro lugar nesse mapa. Bascom observa que Ifá é aberto ao público: os babalawos são consultados por devotos de qualquer divindade, enquanto outras formas de adivinhação se usam dentro dos cultos de divindades específicas (Bascom, Ifa Divination, p. 11). É uma diferença de função, não de valor.
Onde as duas se tocam
Os mesmos Orixás e o mesmo mensageiro. No candomblé descrito por Bastide, cada etapa da iniciação começa com um sacrifício a Exu, intermediário obrigatório entre os homens e os Orixás (Bastide, p. 46), e toda cerimônia pública começa por uma homenagem a ele, o padê (p. 216). Verger registra o mesmo padê antes do xirê, o encontro com Exu, o mensageiro dos outros deuses (Verger, p. 34 do PDF). Em Ifá, Exu está entalhado na borda do tabuleiro do babalawo (Abímbọ́lá, Sixteen Great Poems of Ifá, p. 18), como contamos no guia sobre opele, ikin e búzios. Por que Exu vem primeiro é o tema do nosso Estudo aberto, Exu: por que come primeiro.
O babalaô na porta do terreiro. Bastide registra que, na Bahia, quem queria entrar num candomblé devia começar consultando o babalaô, que interrogava o colar de Ifá ou os búzios para saber qual Orixá é o "dono" da sua cabeça (Bastide, p. 33; ver também pp. 42–43). Um informante dele resume: o babalorixá necessita do babalaô, do babalossaim e do babaogê (p. 137). Verger, do lado africano, conta que, quando nasce uma criança, os pais perguntam ao babalaô a que odu ela está ligada, e o odu indica o seu Orixá particular (Verger, p. 56 do PDF).
A palavra odu. Nos dezesseis búzios dos cultos de Orixá e no Ifá do babalawo, as figuras se chamam odu e os versos se chamam ese, e muitos nomes de figuras são aparentados (Bascom, Sixteen Cowries, pp. 5, 21–22). Um sistema conversa com o outro sem que um seja o outro.
Onde se separam
Sacerdócio. O babalawo é sacerdote de Ifá; o pai ou a mãe de santo dirige o culto dos Orixás no terreiro (Verger, p. 32 do PDF; Bastide, p. 66). Bascom acrescenta, para a Nigéria que estudou, que os búzios podem ser praticados por homens e por mulheres, e que só homens se tornam babalawo (Bascom, Sixteen Cowries, p. 3; Ifa Divination, p. 81). Isso não fecha Ifá às mulheres: os devotos de Ifá incluem homens e mulheres (Bascom, Ifa Divination, p. 81), Abímbọ́lá registra mulheres iniciadas como sacerdotisas de Ifá (Abímbọ́lá, pp. 7–8), e, em Cuba, a mulher que recebe o ikofá pode atuar como apetebí (Brown, p. 346, nota 130).
Iniciação. No candomblé, a possessão está no centro do culto público (Bastide, p. 19); a iniciação do babalaô, segundo Verger, não passa pelo transe (Verger, p. 56 do PDF).
Instrumento. O babalawo trabalha com os ikin ou o opele e com 256 figuras; o adivinho dos cultos de Orixá, com dezesseis búzios e dezessete figuras (Bascom, Sixteen Cowries, p. 21). No candomblé baiano, é a mãe ou o pai de santo quem consulta o obí e, às vezes, os búzios (Bastide, p. 66).
Na Bahia: o babalaô que quase desapareceu
O Brasil teve babalaôs. Verger conta que Martiniano Eliseu do Bonfim voltou de Lagos e se tornou um babalaô muito procurado, e que Felisberto Américo Sowser, o Benzinho, foi "um dos últimos da Bahia" (Verger, p. 18 do PDF). Bastide registra que, no Brasil de seu tempo, já não se tirava o Ifá pessoal, e que Martiniano teria ido à África justamente para isso (Bastide, p. 184).
Depois de Martiniano, escreve Bastide, os babalaôs parecem desaparecer do cenário. Houve, diz ele, uma verdadeira guerra entre babalorixás e babalaôs, mas a sua leitura é mais fina do que uma vitória de um sacerdócio sobre o outro: uma forma de adivinhação substituiu a outra, e o búzio venceu o colar de Ifá (Bastide, p. 135). Bascom, olhando as Américas em conjunto, chega a uma constatação parecida: aqui os búzios se tornaram mais importantes que Ifá (Bascom, Sixteen Cowries, p. 3). A história completa do candomblé você lê em A história do candomblé.
E em Cuba?
Em Cuba, as duas linhas conviveram de outro modo. David H. Brown mostra que os fundadores da religião afro-cubana pertenciam a duas vertentes distintas do sacerdócio, a Regla de Ocha e a Regla de Ifá (Brown, Santería Enthroned, p. 69). A relação entre elas tem respeito e atrito: babalawos chamam certas reformas dos santeros de fraude, e ao mesmo tempo respeitam os adivinhos competentes dos búzios (p. 12). Brown fala de hierarquias de babalawos e santeros construídas em Cuba (p. 11) e descreve, nas casas de Ocha, os oriatés que dirigem as iniciações (p. 73). Bascom registra que, em Cuba, os búzios, o dilogún, são provavelmente o sistema mais importante dos cultos afro-cubanos, embora Ifá também seja praticado e respeitado (Bascom, Sixteen Cowries, p. 4).
Lado a lado
| Ifá | Candomblé | |
|---|---|---|
| Centro | Orunmilá e os 256 Odus | os Orixás, no terreiro |
| Sacerdote | babalawo | pai ou mãe de santo |
| Oráculo | ikin e opele, 256 figuras | búzios, 17 figuras; também o obí |
| Iniciação | formação intelectual, sem transe (Verger) | possessão no centro do culto público (Bastide) |
| Pontos comuns | Exu primeiro; os mesmos Orixás; a palavra odu |
O que não afirmamos
- Não dizemos que uma tradição seja mais antiga, mais pura ou mais verdadeira que a outra. Bastide chegou a chamar certos candomblés de "mais puros" (Bastide, p. 18); não adotamos essa régua.
- Não descrevemos a prática de cada casa hoje: registramos o que estes autores viram e escreveram, cada um no seu tempo.
- Não dizemos que o jogo de búzios do candomblé seja Ifá, nem que derive dele: as fontes divergem, como mostramos no guia sobre opele, ikin e búzios.
- Não tratamos aqui da Umbanda, que é outra tradição com outra história.
- Não tratamos da Iyanifá nem do debate entre linhagens sobre ela: as obras que consultamos não falam do tema.
- Não dizemos que as mulheres sejam vistas como "maiores" em Ifá: não encontramos essa afirmação nas obras que consultamos.
Perguntas frequentes
Babalawo e pai de santo são a mesma coisa?
Não. O babalawo é sacerdote de Ifá e porta-voz de Orunmilá (Verger, p. 56 do PDF); o pai ou a mãe de santo dirige o culto dos Orixás no terreiro (Verger, p. 32 do PDF). Na Bahia descrita por Bastide, um precisava do outro (Bastide, p. 137).
O candomblé usa Ifá?
Usou e conversa com ele. Bastide registra o babalaô consultado antes da iniciação (Bastide, p. 33), mas também que, com o tempo, o búzio venceu o colar de Ifá (p. 135). Bascom constata que, nas Américas, os búzios se tornaram mais importantes que Ifá (Bascom, Sixteen Cowries, p. 3).
Exu é o mesmo nas duas tradições?
As fontes o descrevem nos dois lugares como o mensageiro que vem primeiro: no padê do candomblé (Bastide, p. 216; Verger, p. 34 do PDF) e na borda do tabuleiro de Ifá (Abímbọ́lá, p. 18). Leia mais na página de Exu.
Em Cuba, Santería e Ifá são a mesma coisa?
Brown descreve duas vertentes de sacerdócio, a Regla de Ocha e a Regla de Ifá, que convivem com respeito e atrito (Brown, pp. 12, 69). Sobre o dono de Ifá, leia a página de Orunmilá e, para os signos, a biblioteca dos Odus.
O que você leu aqui tem raiz nos 256 Odus de Ifá — o corpus que estudamos verso a verso. Leia-os como contemplação: divinação real pertence à mesa de um babalawo consagrado.
Fontes consultadas
- O Candomblé da Bahia — Roger Bastide, pp. 17–19, 28, 33, 42–46, 66, 135, 137, 184, 216
- Sixteen Great Poems of Ifá — Wándé Abímbọ́lá, pp. 7–8, 18
- Orixás — Pierre Fatumbi Verger, pp. 2, 18, 20, 32–35, 56, 97 do PDF
- Ifa Divination — William Bascom, pp. 3, 11, 81
- Sixteen Cowries — William Bascom, pp. 3–5, 21–22
- Santería Enthroned — David H. Brown, pp. 11–12, 69, 73, 76, 346
Quem escreve
- Pablo de Lima (Awofakan)
- Thaiana de Lima (Ikofá)
Um casal iniciado em Ifá na linhagem cubana — Regla de Ocha / Ifá.
Conheça os autores →Última revisão:
Receba a sabedoria no seu email
Um novo artigo por semana sobre Orixás, Odus e filosofia iorubá. Sem spam.
Cancele quando quiser, com um clique em qualquer email.
Comentários
Carregando comentários...
Você precisa fazer login para comentar.
